terça-feira, 24 de agosto de 2010

ANTROPOFAGIA, ROCK &PATRULHA

Salvador talvez seja o único centro urbano do mundo em que o Rock é considerado produção cultural alternativa. Mesmo que não seja, é lamentável ter o gênero que revolucionou a história da música ocidental popular contemporânea renegado a segundo plano pela grande mídia e industria do entretenimento na terceira maior cidade do país.

A capital do carnaval de rua que durante sete dias por ano estremece ao som dos tambores, das vozes dos puxadores de trio e com a invasão de turistas ávidos por folia e luxúria não consegue, há mais de duas décadas, democratizar seus espaços.

Não são necessários os dedos de uma das mãos para contar os programas de rádios soteropolitanas que tocam música independente local. Raras são as casas de espetáculos bem equipadas e que tratam respeitosamente os artistas. As emissoras de TV, vez por outra, oferecem pauta como esmola, lidam com artistas consolidados como se fossem aves exóticas e demonstram, salvo a TVE, total desconhecimento do assunto.

Jamais esquecerei quando Os Irmãos da Bailarina foram ao Bahia Meio-Dia, jornal da afiliada à Rede Globo, divulgar o lançamento de seu primeiro álbum. A banda tem um som peculiar com guitarras distorcidas, acordes dissonantes, com a voz grave de Téo - ora berrando ora suave e melancólica - além das letras cheias de poesia e sofisticação. Georgina Maynart, apresentadora, tão perdida quanto um cachorro que caiu de um caminhão de mudança, me veio com essa:

- É impossível falar de Rock sem falar de Raul Seixas. Vocês são influenciados por ele também, né?

Não faz parte do trabalho do jornalista se informar sobre o que vai falar? Se ela é apenas a apresentadora, quem é o editor? Quem formula as perguntas? Algum deles ouviu o CD? Aposto meu polegar opositor direito que não.

A despeito da considerável produção musical não ligada à industria momesca, são poucos os que se aventuram a investir em artistas com trabalhos autorais que não seguem a fórmula das estrelas da Axé Music. É importante, contudo, deixar claro que não quero reeditar aquela tensão antagônica típica dos anos 90 entre Axé e Rock. Está morta... para alguns, pelo menos.

Nos idos da última década do século XX, com a expansão da política de desenvolvimento monocultural do estado pelo governo Carlista, negar música de carnaval era uma necessidade de sobrevivência. Quem gostava de Rock odiava Axé e estava certo da inferioridade do segundo: era sub-cultura, arte menor, coisa de brau. Shows de rock pareciam clube do Bolinha do inferno: só meninos vestindo preto e com cara de mau.

O tempo passou, as pessoas amadureceram... algumas, pelo menos.

A patrulha do rock continua sempre a postos para denunciar impurezas que manchem o manto sagrado dos órfãos de Raul Seixas. Parecem ter esquecido, entretanto, que justamente Raulzito foi um dos pioneiros a meter o pé na jaca e se afundar no lamaçal do brega, por exemplo. Mais que isso, chegou a gravar um bolero rasgado – Sessão das Dez - daqueles bem dramáticos capazes de fazer Odair José, Waldic Soriano e Amado Batista invejarem.

Alguns dos nossos dinossauros estavam trocando o pneu furado do Simca Chambord e não perceberam os ventos da mudança soprando. Enquanto esperneavam contra os traidores do rock, diversos artistas seguiram pelas searas da Semana de 22 - já revivida pelos tropicalistas - e se permitiram influenciar por tudo aquilo que forjou suas histórias ampliando, no final das contas, os horizontes e comunicando com mais pessoas ao mesmo tempo.

Excelentes álbuns foram gerados sob esta égide. Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta lançaram Frascos, Comprimidos, Compressas. Disco com as duas pernas afundadas no samba, o tronco açoitado pelo Jazz e a cabeça sendo golpeada pelo Rock. O Chachachá, dos retrofoguetes, traz como destaque a faixa intitulada Maldito Mambo, com arranjos de sopro assinado por Lutieres Leite e participação da Orkestra Rumpilezz. Dois em Um, duo de Luizão Pereira e Fernanda Monteiro, construiu uma colcha de retalhos sonora com guitarras, sintetizadores, cello e a voz hipnotizante de Fernanda. Roberta Simões, na sua página no myspace, lista lado a lado rock e bossa nova. Sem contar o novo álbum do Cascadura que, segundo uma breve leitura no blog da banda, dialogará com as raízes afro-baianas, como já apontava em O Senhor Das Moscas, faixa do Bogary, que trata das qualidades de Omulu (Atotô Babá).

Há mais rock na atitude deles do que na história de muitos que se proclamam salvadores do rock ‘n’ roll.

Até a Guitarra Baiana, primeira grande estrela dos trios elétricos, já quase extinta se não fosse o esforço hercúleo dos irmãos Armando e Aroldo Macedo, ganhou sobrevida graças a tradicionais guitarristas do rock baiano, como Morotó Slim (Retrofoguetes) e Robertinho Barreto (Lampirônicos) que a tem estudado e incluído em seus shows não como coadjuvantes, além de Julio Caldas com seu projeto Choro Rock.

Talvez esta seja a grande ironia de todas: roqueiros ressuscitando um dos ícones do carnaval baiano. Na realidade, provavelmente, o maior gesto de maturidade seja justamente reverenciar os grandes, independente deste ou daquele rótulo e não se fechar numa gavetinha em cima da prateleira. A patrulha fenece num processo autofágico dentro de listas de discussão irrelevantes que agonizam com os próprios ecos. Enquanto latem, a caravana passa.

E o rock? Bem, continua rolando sem acumular limo.

domingo, 8 de agosto de 2010

TCHACA-TUM

– Este é Pedrão, um grande amigo meu.
– Prazer te conhecer, Pedro.

Isso acontece com uma frequência incrível. As pessoas, pelo menos as de bom senso, evitam maiores intimidades durante um contato tão superficial – salvo em carnaval, micaretas, aglomerações populares com alta concentração etílica e afins. A questão é que Pedrão não é Pedro, é Maurício.

Filho do renomado economista baiano Fernando Pedrão com a uruguaia Beatriz West, irmão dos estadunidenses Ângela e Eugenio e da baiana, hoje radicada do Rio de Janeiro, Mercedes, adotou o sobrenome do pai quando ainda estudava no tradicional colégio Antônio Vieira. Pedrão nasceu em Santiago do Chile durante o exílio político imposto ao seu pai pelo criminoso governo militar brasileiro.

No Chile, a família West Pedrão foi obrigada a fugir para o México por causa do golpe militar apoiado e financiado pelos Estados Unidos da América e executado por Augusto Pinochet em 11 de setembro de 1973 – isso mesmo, 11 de setembro –, resultando no assassinato de Salvador Allende e na instauração da talvez mais sangrenta das ditaduras na América Latina.

Maurício se formou em economia, trabalha na área, toca bateria como poucos, é o campeão intergaláctico de trocadilhos infames e, acima de tudo, conhece jazz como ninguém. Já recusou algumas vezes os insistentes apelos de um amigo que trabalha no IRDEB para apresentar um programa de jazz na Rádio Educadora. Até me ofereci a colaborar, pois tive uma breve experiência apresentando, duas ou três vezes, um programa de variedades ao vivo numa estação local. Mas ele se mostrou irredutível.

Já frequentávamos os mesmo lugares e tínhamos diversos amigos em comum, principalmente os membros de Ronei Jorge e Os Ladrões de Bicicleta, banda em que tocava bateria. Entretanto, nos aproximamos mesmo na dor. Tínhamos nos divorciado recentemente (cada um de sua respectiva cônjuge) e nos vimos solteiros na noite de Salvador. Ok, tá bom. Foi na dor, mas nem tanto assim.

Nossos encontros se tornaram mais frequentes e a partir de então sempre me deleitei com nossas conversas, fossem elas sobre futebol, relacionamentos ou, o mais recorrente tópico de todos do mundo mundial: música. Verdade seja dita, nossas conversas são injustas com ele, pois o cara é uma enciclopédia musical ambulante, e pouco posso contribuir devido ao meu parco conhecimento. Bem, ele ainda acredita que Phil Collins é genial, mas todos temos nossos deslizes. Eu, por exemplo, adoro Sidney Magal. Fazer o quê?

Concordamos em muitas outras coisas, contudo. Ambos temos certeza absoluta de que a melhor banda de todos os tempos foi o Led Zeppelin, que os Beatles são bacanas e os Stones, divertidos. Certa feita, quando discutíamos, pela enésima vez, música, mais especificamente sobre os Beatles, Pedrão concluiu que para gostar de Beatles não precisa gostar de rock. E eu completei: “assim como gostar de Bob Marley não tem nada a ver com gostar de reggae”.

Gosto de Bob Marley, algumas canções de Gentleman – um reggaeiro alemão que canta em inglês com sotaque jamaicano –, e umas duas do Adão Negro, banda local com carreira consolidada através de muito trabalho e cuidadosas composições assinadas por Serginho, também guitarrista, vocalista e bandleader.

Conheci Serginho quando estudávamos letras na UFBA. Nunca pegamos matérias juntos, mas acordes e melodias nos aproximaram. Lembro dele, já naquela época, no final dos anos 90, falando de sua banda de reggae. Então, ele cantava apenas uma ou outra música.

Confesso que tendia a subestimar guitarristas de reggae. Nunca achei que era necessária muita competência pra manter aquele moto contínuo – tchaca-tum, tchaca-tum, tchaca-tum – que se arrastava por horas a fio durante um show ou como trilha musical em rodinhas de maconheiros. Preconceito puro.

Em uma das vezes que levei o meu violão para universidade, encontrei Serginho sentado na área externa da biblioteca central, bem em frente do Instituto de Letras e extremamente ventilada, tocando e cantando, se não me engano, algo de Djavan (todos nós temos nossos deslizes).

– Toque alguma coisa aí pra eu improvisar.
– Peça uma música específica, aí.
– Qualquer uma, porra.
– Oxe, como assim qualquer uma?
– Qualquer uma, qualquer uma. Toque aí que eu improviso.
– Hum...

“Ah, é?”, pensei eu. Apelei pra Tom Jobim e toquei Corcovado, bossa nova com nada menos de 17 acordes, e todos empenados. Serginho, com a naturalidade de quem tira meleca no escuro do quarto, solou jazzisticamente. Putaquepariu, que coisa mais linda.

Hoje em dia tenho pouquíssimo contato com ele. Só não é nulo porque, além de alguns amigos em comum, a digníssima esposa dele, Adriana, é minha colega de trabalho em uma das escolas em que leciono. E como ela não tinha habilitação para conduzir veículos automotivos em vias públicas, eventualmente o encontrava ao deixá-la no trabalho.

Esta baixa frequência tende a diminuir mais ainda, já que Drika, finalmente, tirou a carteira de motorista. Superou traumas, venceu o medo, enfrentou o suplício da autoescola, sobreviveu à impaciência de condutores e ao despreparo pedagógico de instrutores para poder não depender do sistema de transporte público soteropolitano.

Numa terça-feira, Adriana, uma mulher madura, sábia como poucas, equilibrada e dona de uma beleza exótica com cabelos aloirados e lábios carnudos, chegou à sala dos professores, para o turno vespertino, visivelmente abalada. Ao perguntá-la se tudo estava bem, Leila, sem idéia do que acontecera, desencadeou um choro daqueles acompanhados por soluços. Um choro de dor que assustou a todos.

Prontamente, um copo d’água surgiu, colegas e amigos a rodearam num misto de solidariedade e estupefação diante daquela cena improvável. Com alguns minutos e a tranquilidade relativamente readquirida, a mãe de Alicinha nos explicou o que ocorrera. Durante a aula prática de direção, atabalhoou-se e terminou dando uma fechada num jovem rapaz que guiava seu carro importado com todos os opcionais de fábrica. Não bateu, foi somente o susto. Mas sabe como é, o macho adulto branco sempre no comando precisa demarcar o território, mostrar quem manda, fazer xixi nos cantos. E se este exemplar primitivo do gênero masculino sofrer de alguma disfunção erétil ou com algum desfavorecimento de certa peça anatômica ali pela região pélvica, a necessidade de se impor pela força é elevada à enésima potência.

Sem titubear, acelerou fundo, emparelhou e proferiu os piores impropérios, ofendendo com um festival de mesmices de baixo calão não somente ela, mas as mulheres como um todo. Já fragilizada, não segurou a onda quando o instrutor, no final da sessão, ainda a repreendeu de forma veemente demais pela falha. Inacreditável. Surreal. Lamentável.

Nós, colegas, tentamos animá-la contando nossas agruras no trânsito na tentativa de mostrar o quanto é natural cometer erros, principalmente durante a aprendizagem. Fizemos uma breve pesquisa ali mesmo e 100% dos condutores já tinham se envolvido em algum acidente de trânsito. Ou seja, bater o carro é a regra.

Adriana se acalmou, mas de vez em quando ainda balançava a cabeça negativamente, se repreendendo. Leila, então, puxou uma cadeira, a posicionou bem na frente da que Adriana estava sentada, olhou bem nos olhos, a segurou pelos dois ombros firmemente e falou:

– Amiga, eu já te disse: relaxe! Às vezes não adianta insistir. Tem dias que o carro não quer obedecer.






Este texto foi revisado por Paula Berbert

segunda-feira, 5 de julho de 2010

FOI TUDO QUE SOBROU PRO FIM

Daniel Castelani concorreu com uma canção no primeiro e único Festival de Música da Escola Teresa de Lisieux, em 1990. Eu fazia o primeiro ano colegial e torci por ele, mesmo sem conhecê-lo pessoalmente, até porque ele era apenas da oitava série do primeiro grau e sequer podia sair da escola no intervalo. Na verdade, dizíamos que os alunos do ginásio tinham recreio e merendavam enquanto nós, os secundaristas, saíamos para o intervalo e lanchávamos.

Daniel, além de compor, tocou guitarra na apresentação, acompanhado por Diego Rafael Ambrosini no baixo Dolphin amarelo radioativo, Saint Clair, o famoso Kezo, na bateria, e Daniel Azulai nos vocais. Sim, sim, Daniel Azulai. Não, não era o apresentador da Turma do Lambe Lambe cujo jargão era “fiu, fiu, algodão doce pra vocês”.

A música, um rock basicão em Si bemol com três acordes, tinha a linha de baixo, também criada por Daniel, bem marcante, e letra expressando as angústias de um adolescente que testemunhou o fim da ditadura, a melancólica derrota das Diretas Já, e convivia com os obstáculos de uma sociedade que sofria com a superinflação. Além disso, prematuramente reflexivo, meu futuro amigo e autor de Tudo que Sobrou pro Fim já filosofava sobre a própria existência e tinha mais leitura que muito adulto.

Quantas noites me esperam
Quanto tempo sem sabert
Quais são as alternativas
Qual a razão pra não morrer

A cabeça a mil por hora
Não me importa eu gosto assim
Quem sabe um dia ela explode
E eu encontre o meu fim

Tudo faz parte da história
Tudo faz parte até de mim
Tudo o que representa a glória
Foi tudo que sobrou pro fim

Foi tudo que sobrou pro fim
Foi tudo que sobrou pro fim

Apesar de ter sido derrotado por uma baladinha contra-indicada para diabéticos composta por Beto Neves, na época conhecido pela alcunha de James Bond, e cantada pelo projeto de bibelô Artur, a letra de Daniel Castelani era mais consistente e, afinal de contas, era rock de verdade, porra! Neste show, decidi que queria conhecê-lo, pois também arriscava umas poesias (sofríveis, por sinal) e era raríssimo dois moleques com 15, 16 anos interessados em escrita poética.

Foi somente em 1991, quando repeti o primeiro ano colegial, que caímos na mesma turma e nos tornamos amigos. Frequentei muito a casa dele em Itapuã, acompanhei o início do namoro dele com Fran e fui o primeiro amigo a saber que ela, aos 18 anos, engravidara. Estava no hospital fumando clandestinamente com o futuro papai quando ele, abobalhado, soube que Bia recém tinha nascido. Fomos ao berçário juntos e, olhando através do janelão de vidro, fui eu que a vi primeiro e, dando um tapinha nas costas dele, apontei e disse: “Ali é Bia”.

Na nossa sala de aula, havia muita gente talentosa. Gabriel, hoje guitarrista da banda Sua Mãe, de Wagner Moura, e Kezo tocavam bateria; Daniel tocava violão; Max Demian cantava e exagerava fatos como ninguém; Carolina e Claudia Walquíria também cantavam; Cris Oliveira escrevia contos e peças teatrais; e Walter Hufnagel desenhava magnificamente bem, além de ser escoteiro e seduzir todas as meninas.

Hufnagel morreu tragicamente assassinado pela polícia quando um amigo, menor de idade, pegou o carro do pai pra dar uma volta durante as férias em Cruz das Almas, cidade famosa pela guerra de espadas no São João. Walter estava no banco de trás no momento que o motorista de 16 anos tentou furar uma barreira policial, amedrontado pela ideia de o pai descobrir que o amado filhinho pegava o estimado veículo automotor de quatro rodas sem permissão. Por uma infeliz coincidência, a blitz procurava uns assaltantes em fuga. Resultado: policias militares mal preparados abriram fogo contra o carro e o amigo da turma, eleito por voto direto, foi alvejado duas vezes, falecendo instantaneamente.

De Walter, tenho poucas, mas excelentes lembranças. Uma delas foi a técnica desenvolvida durante o breve romance com uma colega. A garota tinha, segundo ele e como pude comprovar posteriormente, um beijo um pouco violento demais. Pressionava os lábios do parceiro com vigor excessivo.

– Você não acha que o beijo dela machuca?
– Acho, mas resolvi isso rapidinho, rapidinho.
– Como?
– Só a beijava fazendo carinho na nuca. Se ela viesse com muita força, agarrava os cabelos e controlava a intensidade.
– Porra, não tinha pensado nisso.
– É a técnica do cabresto.

Outra vez, do lado de fora da escola, eu estava fumando escondido o meu último cigarro e Hufnagel se aproximou perguntando se eu sabia a diferença entre o inteligente e o cowboy. Disse que não. Ele explicou:

– O inteligente não fuma e o cowboy (tirando o cigarro da minha boca e arrancando o filtro) fuma sem filtro.

Como assim, partir meu último cigarro?! Como assim?! Sem filtro é sacanagem.

Conheço pessoas que idolatram filtros como se fossem deuses. Há gente que acha que se a água não for filtrada ou ozonizada, tem que ser fervida. Pelamordedeus, frescura pura. Passei minha adolescência bebendo na torneira ao lado do campo que batíamos baba no Candeal. Lavava as mãos sujas de barro com água corrente e, ali mesmo, sem titubear, matava a sede. Concordo que não precisa radicalizar e beber da torneira da garagem todos os dias, mas eventualmente uma torneirinha não mata ninguém. Só a sede.

Paula Berbert, minha namorada, precisava de um filtro, alguns móveis, equipamentos e coisinhas fofinhas para sua casa nova. Tivemos muita dificuldade em encontrar tanto uma mesa para ser utilizada à guisa de escritório quanto o maldito filtro. Rodamos loucamente um grande shopping na capital baiana sem sucesso. Deixamos a escrivaninha para outro dia e permanecemos em busca do imprescindível: o filtro.

Menino, que coisa difícil. Pouco antes de retornarmos para casa, já resignados, resolvemos passar, por desencargo de consciência, nas Lojas Americanas. Fui direto a um funcionário para economizar tempo e sola de sapato. O atendimento, mantendo a tradição local, foi de excelência.

– Boa noite, senhor. Vocês têm filtro?
– Que tipo de filtro?
– De água.
– Meu filho, há muitos tipos de filtro. Filtro embutido, de armário, de pia, de barro, com água gelada... Preciso saber exatamente qual você quer.
– Que tipo de filtro o senhor tem?
– No momento, nenhum!


Revisado por Paula Berbert.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

FRAQUES E BLUSÕES

Quando li Cartas a Um Jovem Poeta, publicação póstuma de Reiner Maria Hilke, aconselhado por minha Vó Ilka, desvelei a literatura. Sequer tinha alcançado a maioridade quando, diretamente influenciado por este autor nascido em Praga durante o Império Austro-Húngaro e que sempre viveu às custas de amigas, compreendi que inexistem temas nobres. A literalidade está na forma e não no conteúdo. Podemos falar de amor, Deus ou dos travesseiros espalhados na cama poeticamente. E não é, de maneira alguma, o tópico que garante beleza. Na realidade, a beleza está na imagem criada pelo leitor ao finalizar a obra.

Dorival Caymmi, por exemplo, nos ensinou a fazer um dos mais deliciosos quitutes baianos em um de seus sucessos:

Quem quiser vatapá, ô
Que procure fazer
Primeiro o fubá
Depois o dendê
Procure uma nêga baiana, ô
Que saiba mexer
Que saiba mexer
Que saiba mexer

Bota castanha de caju
Um bocadinho mais
Pimenta malagueta
Um bocadinho mais
Amendoim, camarão, rala um coco
Na hora de machucar
Sal com gengibre e cebola, iaiá
Na hora de temperar

Não para de mexer, ô
Que é pra não embolar
Panela no fogo
Não deixa queimar
Com qualquer dez mil réis e uma nêga ô
Se faz um vatapá
Se faz um vatapá
Que bom vatapá

A versão de Gal Costa de 1975 é magnífica.



Três anos depois do lançamento do álbum Gal Canta Caymmi, Chico Buarque, em álbum homônimo, seguiu os passos de Dorival e gravou Feijoada Completa:

Mulher, você vai gostar
to levando uns amigos para conversar
eles vão com uma fome que nem me contem
eles vão com uma sede de anteontem
salta cerveja estupidamente gelada para um batalhão
e vamos botar água no feijão.
Mulher, não vá se afobar
não tem que pôr a mesa e nem dar lugar
ponha os pratos no chão e o chão ta posto
e prepare as lingüiças pro tira-gosto
Uca, açúcar, cumbuca de gelo, limão
e vamos botar água no feijão
Mulher você vai fritar
um montão de torresmo pra acompanhar
arroz branco, farofa e a malagueta
a laranja-bahia ou da seleta
joga o paio, carne seca, toucinho no caldeirão
e vamos botar água no feijão
Mulher, depois de salgar
faça um bom refogado que é pra engrossar
aproveite a gordura da frigideira
pra melhor temperar a couve mineira
diz que ta dura, pendura, a fatura no nosso irmão
e vamos botar água no feijão.

Se Caymmi optou por um prato bem regional, Buarque lançou mão da, talvez, mais popular receita brasileira que, por sinal, estou convencido, se trata da comida mais antissocial do mundo mundial.

Não tem festa que perdure após a feijoada ser servida. Aos poucos os convidados conversam menos, ficam meio prostrados... quase catatônicos. É que após a ingestão de tanta gordura, nosso organismo tende a produzir e secretar sais biliares, que por sua vez estimulam o aumento de secreção pancreática de bicarbonato levando, à conhecida "maré-alcalina" pós prandial que leva, inclusive, à sensação de sono e cansaço. Ou seja, bate a lombra, a maresia.

Ainda assim, não perco uma feijoada por nada. Tem uma maravilhosa no Aconchego da Zuzu, um restaurante cuja dona, D. Zuzu. já rompeu a barreira dos 100. O restaurante, uma casa residencial adaptada, fica ali no fim de linha do Garcia, um bairro pequeno que desemboca no tradicional Campo Grande, lar do majestoso Teatro Castro Alves.

Não exatamente vizinho do Aconchego da Zuzu, mas ainda no mesmo bairro, está um dos colégios mais tradicionais de Salvador: Antônio Vieira. Por trás dele, indo até o Vale dos Barris, passa uma rua chamada Ladeira da Curva Grande. Segundo minha outra vó, a Diva, mulheres da Curva Grande não podem casar com homens do (bairro) Pau Miúdo. Como assim, Vó Diva?! Como assim?!

Nos meus 19 anos de idade, frequentava o Garcia pelo menos uma vez a cada 30 dias. Ia religiosamente ao Centro de Testagem e Aconselhamento COAS, onde me cadastrara, para pegar, gratuitamente, a minha cota mensal de preservativos. Por sinal, tempos de vacas gordas. Não posso precisar a quantidade exata, mas, mesmo que tivesse uma vida sexual hiper ativa seria impossível usar tanta camisinha. Se sexo fosse uma modalidade olímpica, talvez, um atleta de alta performance, futuro medalhista, se preparando para os Jogos, fosse capaz de dar conta.

Para não desperdiçar e, ao mesmo tempo, promover um serviço de utilidade pública, distribuía preservativos para alguns porteiros aqui do Candeal. Um deles, Assis, era um cara tosco. Não era mais rude por falta de espaço. E olhe que tinha mais de 1,80m e pesava, pelo menos, uns 90kg. Apesar da grosseria latente, Assis era extremante cuidadoso, além de ser, baseado na quantidade de camisinha que eu lhe fornecia, uma máquina. Sempre, sempre mesmo, tinha “uma mulé, uma figura aê, uma coisinha”... que, segundo ele, eram sortidas pois, afinal de contas, figura repetida não completa álbum.

Uma das vezes que cheguei de madrugada em casa, o bom e velho Assis me interpelou:

- Colé, Lubisco. Na paz?
- E aí, Assis. Tudo beleza?
- Man, na moral, me arranje uns fraque aí.
- ????
- Brusão.
- Ah, claro. Quantas você precisa?
- Muitas. A situação tá compricada.
- Oxe, por quê?
- A mulé, man, a mulé.
- Entendi. Namorada nova?
- Porra de namorada. Tô furando uma nêga aê.
- Você o quê?
- Tô torando carçola no dente.

Texto revisado por Nídia

quinta-feira, 15 de abril de 2010

PÉ DE PLANTA

Já viajei muito, mas menos do que gostaria. Em junho de 2000 passei um mês em Copenhague. Fui o monitor de oito adolescentes que faziam parte de um projeto de intercâmbio cultural organizado pelo CISV (Children International Summer Village).

Lá, fiquei hospedado no apartamento da monitora, Laila. Qualquer lata de sardinha era mais espaçosa que aquele meio cubículo. O banheiro, de tão estreito, me impedia abrir os braços lateralmente. Na cozinha, só uma pessoa por vez. E para piorar, nesse apertamento, habitava o maior felino do mundo: Rufus. Nada contra gatos. Até acho os bichanos bonitinhos. Mas é que sou alérgico.

Três dias após a minha chegada à cidade internacionalmente conhecida por sua excelente qualidade de vida, descobri que o felino obeso odiava a fumaça do meu cigarro. Foi a minha salvação. Bastava aquela bola de pelos quadrúpede chegar perto, que eu, aguardando um vacilo de Laila, dava um profundo trago e despejava o resíduo tóxico bem na fuça do bicho. Ainda recordo, surpreso, a agilidade com que o troço fugia.

Custou-me duas semanas e meia a adaptação aos dias longuérrimos. Às 23h ainda estava claro e às 4h30m já estava claro. Coisas do verão escandinavo, assim como as chuvas passageiras em pontos isolados. Curiosamente, tais pontos me perseguiam todo santo dia. Não houve intervalo maior de 24 horas que eu não tenha sofrido com precipitações atmosféricas fugazes. Humpf! E eles chamavam aquilo de verão.

Outro aspecto impressionante é a quantidade de bicicletas. Surreal! As crianças dinamarquesas devem aprender a pedalar mais cedo do que dão os primeiros passos. 36% de toda a população da capital utilizam esta invenção européia do século XIX para ir para e voltar do trabalho. Todas as vias públicas principais têm faixas exclusivas para ciclistas que, incrivelmente, são respeitados.

No dia seguinte à minha chegada, Laila me convidou para a festa de celebração do dia mais longo do verão, em um parque na beira de um braço de rio. Haveria shows musicais de artistas dinamarqueses importantes e outros nem tanto. Aceitei prontamente, apesar do cansaço absurdo da interminável jornada Salvador/Frankfurt, Frankfurt/Copenhague e de uma noite mal dormida graças ao maldito amanhecer precoce.

- Você sabe andar de bicicleta?
- Claro. Até participei de provas de BMX na adolescência.
- Ótimo. Mas... continua pedalando? Tem este costume?
- Olha, não é um hábito, nem tenho bicicleta, mas pode ficar tranquila, não vou cair.
- Não é isso. É que antes temos que passar na casa de meus melhores amigos, Lars e Tina.
- E é longe?
- Longe não é, mas também não é pertinho.

O Sr. Jensen, pai de minha anfitriã, cujo jardim plantado e mantido exclusivamente por ele - apesar da dificuldade de locomoção proveniente de dois pinos nos joelhos e da idade já avançada – deveria ser incluído entre as oito maravilhas do mundo, me emprestou uma bicicleta. Era daquelas antigas com uma marcha só, guidão em forma de chifre de touro apontando na direção do ciclista, cestinha metálica na frente e freio contrapedal. Uma beleza só.

Partimos. No início, lado a lado, conversando, falando sobre o clima, as diferenças entre Brasil e Dinamarca e outras amenidades. O diálogo tornou-se impossível passados alguns minutos, pois eu, àquela altura, já ficara 5 ou 6 metros para trás. Quase perguntei, diversas vezes: “Falta muito, Papai Smurf?”. Não me entreguei, contudo, e segui calado na minha via crucis.

Entre passar na casa dos amigos e chegar ao bendito festival de festejo do solstício de verão foram quase 30 km. Como assim, “longe não é”!? Como assim?!

O lugar era belíssimo e estava apinhado de pessoas das mais diversas idades. Aparentemente, todos haviam chegado de bike. Deixamos as nossas no estacionamento, sem precisar acorrentá-las nem nada. “Igualzinho ao Festival de Verão em Salvador”, pensei. Ainda andamos um bocadinho. O suficiente para recuperar o meu fôlego em meio a pensamentos desesperados, antecipando o retorno.

Tina e Lars se mostraram um casal dos mais divertidos. Um senso de humor sutil, cheio de ironia e pronto para ridicularizar tanto um amigo como a si mesmos. Me identifiquei tanto com os dois que até hoje, 10 anos depois, mantemos contato regularmente via email. Há uma promessa de eles passarem férias aqui com os dois filhos, não nascidos naquela época.

Em inglês impecável, me explicaram que o ponto alto da festa era enviar uma balsa improvisada com uma bruxa em chamas para a Suécia.

- Mas por que mandar uma bruxa pra Suécia?
- Ora, porque lá tá cheio de suecos.

Os suecos, entendi assim, são os argentinos dos brasileiros.

Depois de sete atrações menores que só tocavam covers de bandas internacionais, entre elas Roxete, Eurythmics e ABBA, começou a atração principal: Tim Christensen.

Depois do fim de sua banda Mizz Dizz Lizzy, em 1998, Tim Christensen que além de cantor e compositor toca guitarra, baixo, Mellotron, gaita, bateria e piano, deu início a uma bem sucedida carreira solo. Aquele show era, também, o lançamento do seu primeiro álbum, Secrets On Parade, cuja quarta faixa, Love Is A Matter Of..., se tornou um hit em todo o país.

Passei as quase duas horas de show hipnotizado. Não conseguia falar. Apenas respondia monossilabicamente aos meus mais novos amigos. Os 30 km até em casa foram em silêncio, tentando processar aquele bombardeio de sensações provocado pelas músicas. Nos dias seguintes ao show fui a não sei quantas lojas de CD, mas recebi, invariavelmente, a mesma resposta: tem, mas acabou. Acabei desistindo.

No aeroporto, pouco antes de embarcar para Paris, onde passaria uma semana antes de retornar a Salvador, Tina, Lars e Laila me presentearam com o álbum. Disse adeus chorando pela saudade que já sentia, pela felicidade de ter feito amigos e pelo CD, finalmente meu.

Em 2007, outro álbum me causou efeito semelhante. Bogary, o quarto álbum da banda baiana Cascadura. Produzido pelo, talvez melhor produtor de rock no Brasil, andré t., todas as faixas me emocionaram profundamente. Amor a primeira ouvida. Cheguei ao ponto de, assim que acabei minha primeira audição, ligar para o bandleader, compositor e cantor da banda, Fábio Cascadura:

- Alô
- Fábio, aqui é Lubisco, como vai?
- Fala Lubisco. Tudo beleza. E você?
- Man, tô ligando justamente porque tô ótimo e você tem uma influência direta nisso.
- Oxe.
- Acabei de ouvir o Bogary e mudou minha vida. Acho que é o melhor disco de rock feito neste país desde a década de 80.
- Porra, massa que você gostou. Legal mesmo.
- Não sei por que exatamente, acho que foi a textura, as gravações do Bogary me remeteram a um dinamarquês chamado Tim Christensen. Você conhece?
- Rapaz, não.
- Beleza, vou gravar um CD e te entrego no Balcão Botequim este sábado. Cê vai tocar lá né?
- Isso.
- Falou, man. Até sábado.
- Até

Aproximadamente 4 meses depois do meu presente para Fabão, encontrei, por acaso, em um show do Cascadura, andré t. quem eu só conhecia de “oi, como vai?”. Para minha surpresa veio comentar sobre Secrets On Parade. Disse que era um dos melhores discos dos últimos tempos e que, quando uma banda novata ia gravar com ele, entregando o CD, dizia:

- Leve isso para casa, ouça bastante. É seu dever de casa.

Putaquepariu! Até andré t. tinha gostado. Não somente isso. Usava A Minha Descoberta para ensinar os novos pupilos. Eu estava, praticamente, influenciando a nova geração do rock baiano via andré.

Foi em um aniversário dele que conheci Ruth, mãe de Duda e sua sogra. Conversamos longamente e ela me deu uma aula de paisagismo, profissão que abraçara há alguns anos. Perguntei se aquela coisa de “fulano tem mão-verde” era verdade mesmo. Sem titubear, afirmou categoricamente que sim. Que um jardineiro ou paisagista sem uma boa mão para planta está falido. Que além do conhecimento técnico e da experiência prática, há este elemento intangível que faz, no final das contas, toda a diferença.

Algumas pessoas levam a relação com as plantas a um outro patamar. Januário, por exemplo, o porteiro do condomínio Pedras da Colina, ao lado do Edifício Pedra Azul, onde morei durante toda minha adolescência, contava uma história ocorrida na sua cidade natal, uma longínqua localidade no sertão da Bahia.

Januário, homem simples e de crenças sobrenaturais, tinha vocabulário e sotaque muito peculiares. Quando queria estabelecer um tom mais solene e, assim, ganhar credibilidade, começava suas frases com um recurso vocabular genial: somente que.

- Somente que no meu sertão tinha um cabra que virava pé-de-pranta.
- É mesmo, Januário? E o que ele fazia?
- Oxe, nada. Já viu pé-de-pranta fazer alguma coisa?


Este texto doi revisado por Nídia Lubisco

sexta-feira, 5 de março de 2010

PACIENTE

O Vale do Capão é um vilarejo da cidade de Palmeiras, a 439 quilômetros da capital baiana, no Parque Nacional da Chapada Diamantina, onde nascem quase todos os rios das bacias do Paraguaçu, do Jacuípe e do Rio de Contas. Esta região cheia de deslumbrantes quedas d’água como a Cachoeira da Fumaça, que com seus 380 metros de altura figura entre as cinco maiores do mundo em queda livre, é o destino preferencial de uma geração de cansados-da-loucura-urbana. Estes órfãos de Woodstock 69, na década de 1990, resolveram abandonar o luxo de suas casas e a conveniência de locais públicos com ar condicionado e escada rolante para buscar os seus eus, entrar em contato com a natureza e, principalmente, romper com os padrões opressores de uma sociedade que tolhe as relações humanas sem posse e apego. Conheço um punhado de pessoas que afirmam necessitar uma visita ao Capão, pelo menos, uma vez por ano para recarregar as baterias. PELAMORDEDEUS! Quer recarregar, meta o dedo na tomada.

Roberta, uma colega da Escola Teresa de Lisieux, no nosso último ano de estudo secundarista, começou ensaiar umas histórias estranhas, reclamando da piração da cidade, evocando um espírito bucólico, além de expandir as barreiras da consciência através do uso frequente de THC. Resultado: poucos anos depois, abandonou o curso de Letras na UFBA e se mudou para a Meca dos hippongas que compram saias indianas e batas em lojas de shopping centers, depilam as axilas e comem McDonald’s. Lá, conheceu a outra metade da laranja, construíram uma casa no meio do mato e Beta engravidou. A futura avó materna e o futuro avô paterno, preocupados com o nome que o futuro neto poderia receber, resolveram visitar os filhos e tentar persuadi-los de batizar a cria com um daqueles nomes exotéricos, tipo Flor, Brisa, Sereno, Íris, Sol... Chegaram, entretanto, tarde. De Raio, foi chamado o rebento. Bem que podia ter sido pior, algo como Coentro, Lótus ou mesmo, sei lá, Crepúsculo.

Certa feita, estava na casa de Cris, minha amiga-irmã, quando tocou a campainha e Madonna, a cadela de Cris (mensagens ambíguas são um perigo), uma pinche neurastênica, começou a latir e uivar freneticamente. Eram, para nossa surpresa, chegados direto das profundezas das trilhas ecológicas na Chapada, sem aviso prévio, Beta e Raio, então com aproximadamente quatro anos de idade. O moleque, apesar da aparência suja e do cheiro de terra, era bonitinho.

Com pouquíssimo tempo de convivência, percebemos que o nome da criança era apropriadíssimo. Enquanto tentávamos colocar a conversa de tantos anos separados em dia, Raio insistia em atormentar Madonna. Vendo aquilo, Cris, zelosa que é, advertiu:

– Beta, essa cachorra é louca. Vai acabar mordendo ele...
– Pô, Cris, nada a ver. Deixe a criança interagir com o animal.

Interagiu tão bem que foi preciso, após alguns intermináveis minutos de berreiro desenfreado, uma boa lavada com sabonete e enxágue com água oxigenada, estancar o sangramento na mão com gaze e esparadrapo. Já com Raio, finalmente, cochilando no colo da mãe, descobrimos o verdadeiro motivo da ida de Beta à cidade: ver um dermatologista, pois há quase duas semanas não parava de se coçar. Era sarna.

Beta tomou seu rumo, nós, então, corremos até a farmácia, compramos Escabin e seguimos para uma loja de material de limpeza industrial, onde compramos um desinfetante com bactericida. Voltamos para casa, lavamos todos os cantos do apartamento e fomos tomar banho... Ela na suíte e eu, no banheiro de visitas.

É impressionante como certas pessoas resistem em ir ao médico ainda que tenham sintomas persistentes. Vi um documentário sobre uma mulher que tinha um tumor com mais de 80 quilos. Durante a cirurgia de altíssimo risco, a paciente teve de receber seis vezes o volume de sangue do corpo. Imagine o trabalho da equipe de anestesistas para mantê-la estável com tanto sangue sendo perdido e reposto.

O pai de um grande amigo, mesmo sendo cardiologista, vinha sentido dores no peito há mais de uma semana. Apenas quando teve angina dormindo, resolveu procurar ajuda. Ao acordar, sem falar nada, ainda levou a esposa ao aeroporto antes de ver um colega que o internou imediatamente para ser submetido a uma cirurgia de implantação de ponte de safena. No final das contas, deu tudo certo. De vez em quando, o encontro andando ao redor da mesma praça em que corro diariamente na minha luta contra uns quilos a mais que não me deixam de jeito nenhum.

Só após muita pressão dos três filhos, Rapahel, meu pai, aos 60 anos, foi fazer o seu primeiro exame de próstata. E ele, além de ser um cara muito bem informado, antes de se aposentar pela UFBA, ensinou diversas matérias, tais como fisiologia e anatomia, no Instituto de Ciências da Saúde. Dizem que os piores pacientes são os médicos. Acho que são as pessoas ligadas à área de saúde em geral. Ouvi meu digníssimo progenitor dizer, toda vez que insistíamos para fazer um exame ou marcar uma consulta médica, que preferia morrer ignorante. Tanta resistência por causa de uma dedadazinha inocente, sem maldade alguma, meramente técnica.

Bem, após muita relutância, marcou e, escoltado, foi para a bendita consulta. Chegando lá, ao ser atendido, descobriu que fora contemporâneo do médico na época de escola. Ambos cursaram o Colégio Central, prestigiada instituição de ensino de Salvador antes do sucateamento da educação pública iniciado com o golpe de 1964. Conversa vai, conversa vem, o doutor, aproveitando que o paciente de primeira viagem estava bem descontraído, introduziu como seria o exame:

– ... e apesar de não ser doloroso, o senhor deve sentir um leve desconforto.
– Tomara que seja muito desconfortável, que incomode muito mesmo.
– Como assim? Por que isso?
– Já pensou se a esta altura do campeonato, sexagenário que sou, recebo uma dedada e descubro que gosto?

Esta crônica foi revisada por Paula Berbert

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

MATA 15

Sempre gostei de praticar esporte. Não pela competição em si, mas pelo jogo, pela resenha no final e, principalmente, pela autogestão necessária para o funcionamento de um time. Por isso, provavelmente, só me envolvi em esportes coletivos.

Até tentei tênis, mas não tinha talento nem suportava a solidão que reinava do meu lado da quadra. A solitude poderia até ser superada, mas a minha descoordenação motora... pouco provável. O esforço para rebater aquela maldita bolinha amarela saltitante pro outro lado usando uma raquete era o mesmo necessário para inserir uma linha no olho da agulha com luvas de boxe calçadas: sofrido e, acima de tudo, ridículo.

Consegui ser um bom jogador em todos os esportes nos quais me dispus a jogar na época de escola. Nunca fui o melhor, mas jamais o último a ser escolhido. Longe disso.

Em 1989, ainda na oitava série, fui o levantador da equipe de vôlei que terminou o campeonato da Escola Teresa de Lisieux em primeiro lugar, derrotando o temido 3° ano A, que, coincidentemente, era a base da seleção. Diante do Ginásio Poliesportivo lotado, cravamos 3X1, de virada.

Em 1991, repetindo o 1° ano colegial, fui bicampeão no esporte em que Bernard, Montanaro, Xandó e Renan conseguiram a medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Los Angeles (1986) defendendo o time da turma C: The Sweet Dicks. O melhor de tudo foi, na cerimônia de premiação, Armentano, o professor de Educação Física, chamando-nos para receber as medalhas de ouro no palco, diante de todos os outros professores, inclusive Celina, de Inglês:

– O departamento de Educação Física gostaria de chamar ao palco para receber as medalhas de ouro do torneio interno de voleibol de 1991: The Sweet Dicks!

No ano seguinte, fui o goleiro revelação do campeonato de futebol de salão. Meu time, cujo nome não recordo, foi derrotado nas semifinais justamente pelo time do cara que recebeu o troféu de melhor goleiro, Miguel Ângelo. E, cá entre nós, ele que não me leia: muito merecido o prêmio. Não passava nada. De longe, de perto, com efeito, canhão, colocadinha no canto, nada fazia efeito. O atacante driblava todo mundo e metia a bicuda. Miguel, ágil como um felino: zás! Defendia.

O meu último ano de escola foi marcado por ter participado do meu primeiro campeonato de randebol. Aprendi a jogar de pivô na marra. Confesso que filar incontáveis aulas para treinar com mais alguns colegas engajados no desenvolvimento do esporte nacional ajudou muito a minha adaptação. Nós, os Condutores de Cadáveres, conquistamos a prata, perdendo na final para o time da oitava série. Oh, não, meu Deus! Haveria uma maldição contra times do 3°ano disputando finais contra pirralhos? Como assim, Senhor, como assim?!

Além disso, foi justamente em 1993 que comecei a praticar, de maneira empírica, basquete. Não cheguei a participar de torneios nem, tampouco, treinar sistematicamente. Mas ainda hoje consigo conduzir bem a bola (com a mão direita) e arremessar com estilo... mesmo sem acertar a cesta.

Contudo, este não tinha sido o meu primeiro contato com o esporte estadunidense. Há muito, muito tempo, mesmo antes de Luis Caldas lançar Magia, seu primeiro álbum, assisti no Balbininho a um amistoso entre a seleção feminina do Brasil contra a Venezuela. No final, ainda peguei autógrafos de Hortência, Paula e Marta.

Acabado o estudo secundarista, só me reaproximei do basquete em função de um incidente num vôo Paris/Salvador em 2000. Eu voltava de uma viagem como responsável de um grupo formado por oito adolescentes soteropolitanos que participavam de um programa de intercâmbio cultural em Copenhagen. Foram trinta dias na capital da Dinamarca e mais cinco na francesa, estes a título de turismo mesmo.

Já no avião, tanto eu quanto meus oito filhotes, Kitu, Cauê, Felipe, Thiago, Larissa, Raquel, Juliana e Patrícia, ficamos impressionados com uma penca de mulheres altíssimas – no mínimo 1,90 m – passando pelo corredor e se acomodando ali, perto de nós. Eram as francesas convocadas para um amistoso contra a nossa seleção em Natal.

Fiquei sensibilizado com aquelas gigantas se espremendo em poltronas em que eu, com meus meros 180 cm de altura, mal conseguia encontrar uma posição confortável. Mas fazer o quê? Abstraí e caí no sono. Afinal 35 dias de teen-sitter mata qualquer um.

Após duas horas de vôo, fui acordado por uma de minhas meninas enxugando as lágrimas. Ainda meio atordoado, perguntei o que ocorrera.

– Quando inclinei o encosto pra dormir, a mulher atrás de mim começou a gritar em francês, acho, e empurrar minha poltrona até eu botar na posição original.
– Oxe, mas por que isso?
– Ela é uma daquelas grandonas. Acho que apertei, sem querer, as pernas dela.

Ok, massa, entendo que ela pode até ter se machucado e, de coração, me solidarizo. Entretanto, gritar com um dos meus pequenos... como assim, tia francesa?! Como assim?!

Esfreguei os olhos, fui até o fundo da aeronave, expliquei à comissária de bordo o ocorrido e pedi que ela me acompanhasse para traduzir simultaneamente o que eu gostaria de dizer. Mesmo titubeante, Alice me seguiu. Educadamente, toquei o ombro da jogadora para que ela olhasse pra mim e falei:

– Boa noite. Meu nome é Lubisco e eu sou o responsável pela adolescente sentada logo à sua frente. Gostaria de lamentar a falta de dinheiro da sua confederação para comprar primeira classe, que é bem mais confortável para pessoas da sua altura. Então, Juliana vai baixar o encosto dela como a senhora está fazendo. Caso ela me acorde chorando novamente, voltarei aqui sem auxílio de comissária para traduzir e garanto que não serei tão cordial.
- ... P-p-pardon.

Chegamos em terra firme sem maiores problemas. O máximo foi ter que sentar ao lado de uma outra das minhas pequeninas na hora do pouso porque tinha medo de avião.

Engraçadas as fobias que o povo tem por aí. Paula Berbert, minha digníssima namorada, uma das pessoas mais inteligentes que conheço, se apavora com a possibilidade, mesmo fantasiosa, de cruzar o caminho de um daqueles insetos de coloração castanha, que pode viver por até três dias sem água e dois meses sem comida.

Por mais que eu pondere que, mesmo sendo um bicho nojento, não há razão para se sentir ameaçada, pois, além de ser trocentas vezes menor que um ser humano e bastar uma pisadela pra dar fim àquela infecta existência, Paula insiste em argumentar:

– Veja bem, sabe por que não tenho medo de aranha?
– Oxe, não.
– Porque ela fica ali na dela, sem perturbar ninguém, na paz. Mas barata? Aquela criatura nojenta fica na espreita, só esperando, esperando. Daí quando eu passo, ela acena com as anteninhas e parte pra cima de mim.

Quando ainda cursava letras na UFBA, tinha um colega que, entre o intervalo de dez minutos entre a aula de Latim e a de Filologia Românica, invariavelmente tomava um cafezinho na cantina comigo e outros colegas. Nunca, entretanto, chegava à segunda aula no horário pois tinha medo de ser pego pela brisa que soprava no corredor. Esperava alguns minutos até, segundo ele, o corpo esfriar e não correr o risco dos órgãos estoporarem. Como assim, medo de brisa? Como assim?

E há pessoas que de fato têm medo da invenção de Santos Dummont, mesmo sendo comprovadamente o meio de transporte mais seguro do mundo mundial.

Catarina, amiga minha, bacharel em cinema, filha de D. Nádia, é uma delas. Certa feita, numa escala em Recife, só não desceu porque o piloto interveio e, com uma paciência de Jô, a convenceu a viajar o último trecho na cabine. Bons tempos aqueles antes do fatídico 11/9.

Mas Caty não está sozinha. Há uma legião que prefere encarar dias de estradas em péssimas condições a desbravar o azul dos céus. Uns com certa razão, outros sem nenhuma.

Seu Delmiro era um próspero fazendeiro na região de Paulo Afonso, município baiano a 445 km da capital, com uma população pouco superior a 100 mil habitantes. Já na terceira idade, resolveu, por pressão dos filhos e netos, mudar para Salvador e ficar mais próximo dos familiares, além de, em caso de emergência, ter acesso a hospitais mais bem equipados e médicos, teoricamente, mais qualificados.

Porém, sendo um homem do campo, não conseguia passar muito tempo sem o cheiro de curral ou o leite recém-ordenhado ali mesmo in loco, assim como não suportava o trânsito infernal nem a violência urbana da Soterópolis. Por isso, frequentemente enfrentava a malha viária em condições horrendas para desfrutar do ar puro, do silêncio e tantas outras benesses somente encontradas na nossa querência. Afinal, como sabiamente disse Mário Quintana: “A gente sempre mora na casa em que nasceu.”

A árdua viagem, entretanto, tornou-se um obstáculo quase intransponível. Seu Delmiro já estava quase aceitando a impossibilidade de enfrentar as sete horas de viagem e somente matar as saudades da amada Paulo Afonso por fotos. Foi quando uma empresa local de aviação reavivou a rota para a terra do complexo hidrelétrico capaz de gerar 4.270,6 megawatts de energia. Comemoração na família.

Seu Delmiro, que jamais voara, ficou meio desconfiado da idéia de entrar num avião. Logo ele, um senhor cuja maior distância entre seus pés – bem calçados com botas de couro – e o solo era quando estava montando um de seus tantos cavalos. Como assim voar?! Como assim?!

Coube ao filho mais velho, um bem-sucedido homem de negócios que tinha mais horas de vôo do que muito piloto novato, acalmar o patriarca.

Chegado o dia da viagem, Seu Delmiro engoliu o medo e, cabra-macho que era, enfrentou o bicho sem reclamar. Mesmo tremendo por dentro mais que vara verde, entrou pisando firme no bimotor com capacidade para três tripulantes (piloto, copiloto e comissária de bordo) e doze passageiros, carinhosamente conhecido pelo singelo apelido de Mata 15.

Com poucos minutos após a decolagem, a sorridente comissária, se espremendo pelo corredor, ofereceu a todos água mineral com ou sem gás, refrigerante e dois bombons tipo Sonho de Valsa. Era tudo muito simples, mas super caprichado.

A esta altura, depois de deleitar-se com o chocolate, Seu Delmiro já estava tão relaxado a ponto de conversar efusivamente com os outros passageiros, arrancando-lhes sonoras gargalhadas com seus causos de sertanejo. Porém, assim como as estradas, o céu parecia esburacado. Repentinamente entraram numa zona de turbulência tão violenta que um dos sacolejos arremessou o chapéu de Seu Delmiro no colo do rapaz sentado na poltrona ao seu lado. Oxe, o homem valente feito touro virou bezerro berrando quando é afastado da mãe:

– Ai, meu Deus! Ai, meu Pai. Esse troço vai cair. Não quero morrer agora. Ainda tenho que ver meu neto mais novo se formar! Ele vai ser veterinário pra cuidar do meu gado! Ai, meu Deus!

Vendo que os esforços dos vizinhos de poltrona eram em vão, a comissária resolveu ajudar. Cambaleou até o cabra-macho, agachou-se bem ao lado da poltrona, passou a mão nos cabelos suados dele e, com uma voz quase materna, disse:

– Calma, Senhor. Eu prometo que vamos chegar lá sem problema algum. Essa turbulência é normal.
– ...
– O senhor não quer um Sonho de Valsa?
– Sonho de Valsa é o caralho, minha filha! Eu quero é chão!


Revisado por Paula Berbert (www.marcatexto.com.br)

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O COELHINHO DE DARWING


Fazer aniversário em junho é uma merda. Nasci em 1974. Ainda hoje, quando afirmo ter começado a estudar inglês em 1996 aos 21 anos, sou corrigido: “Aos 22!”. A questão, meu caro, pensei eu, é que comecei meus estudos em fevereiro. Ou seja, ter sido parido no sexto dia do sexto mês me faz passar por um idiota incapaz de fazer uma subtração simples. Não faltam aqueles olhares do tipo: “como assim?! 96 - 74 = 22! Até uma criança iniciando a vida escolar sabe! Como assim, mermão?!”

Pois bem, em 1996, aos 21 anos e com o patrocínio de minha mãe, matriculei-me na Cultura Inglesa para iniciar meus estudos na língua falada na terra do Led Zeppelin. Na segunda aula (faltei a anterior) do meu terceiro semestre seguido de dedicação absoluta ao aprendizado do dialeto falado por Lady Di, Churchill, The Fab Four e David Beckham, conheci minha primeira professora falante nativa: Polianna.

Calada, passava por brasileira facilmente. A pele sempre bronzeada de sol tinha aquela cor de cabaça curtida; os olhos e os cabelos lisos, sempre soltos, ton sur ton, contrastavam suavemente com os ombros, invariavelmente à mostra; e as pernas - ai, ai, ai, aquelas pernas grossas - mesmo quando aceleravam em direção à classroom 4, desfilavam em câmera lenta sob minissaias desbotadas. O problema era quando falava. Daí, o sotaque tipicamente britânico nos dava a impressão de estar assistindo My fair lady.

Foi Poli quem me estimulou a fazer um curso intensivo de quatro semanas na Inglaterra, mais especificamente na ISCA School, em Exeter, no condado de Devon, região oeste da grande ilha. Ela havia trabalhado lá e fez excelentes recomendações da equipe de professores e do empregador, Mr. Richard Tomlison. E cá entre nós, pela natureza das relações trabalhistas, quando um ex-empregado atribui bons adjetivos ao ex-patrão é de se impressionar.

Em 1997, a internet era muito cara e muito lenta. Só havia, salvo engano, conexão discada. Sendo assim, todo o contato, desde a primeira consulta em relação a preços até o recibo de matrícula a ser apresentado na temida imigração inglesa, foi via carta.

Na última semana de janeiro de 1998, aos 23 anos, tendo somente nível intermediário de inglês, parti para a primeira aventura internacional on my own. Após troca de aeronave em Zurich, de bagagem extraviada, duas horas de ônibus entre London e Exeter e mais alguns minutos de táxi, finalmente cheguei à casa dos Piningtons, amável família que me hospedaria por exatos 28 dias.

Quem abriu a porta para mim foi Gill, a mãe, com um sorriso que somente mães sabem dar. David, o marido dela, chegou minutos depois acompanhado de Rose, 11 anos, e Harry, 9. Era uma família muito harmoniosa e receptiva, provando que estereótipos são tão úteis quanto narradores de futebol em transmissões televisivas.

Apesar do cansaço, após tão longa jornada, da melancolia resultante do primeiro contado com o frio de verdade e da incompetência linguística, consegui explicar para Gill que minha bagagem não chegara. A partir daí, ela assumiu o contato com a British Midland, intermediando, ponderando e esbravejando quando se fez necessário. No meu sétimo dia por aquelas bandas, numa manhã sem graça, Gill bateu à porta do meu quarto, como sempre fazia para eu não perder a hora da aula. Respondi que já estava acordado e agradeci. Ela, para minha surpresa, insistiu:

(Tecla SAP)

- Lubisco, você poderia abrir a porta, por favor?

- (Me enfiando dentro de uma calça e camiseta qualquer) Erm... sim, sim. Só um segundo, por favor...

- Ok.

Quando abri a porta, lá estava Gill, abraçada à minha bagagem que acabara de ser entregue pela companhia aérea e com um sorriso que só mães sabem dar! Largou meu mochilão no carpete sem dó nem piedade e me abraçou. Um abraço que só mães sabem dar.

Com pouco mais de duas semanas pelas terras do Scone & Cream, já andava sozinho pelo emaranhado de ruas do centro da cidade, visitava os pubs locais como um regular costumer e puxava conversa com estranhos só para treinar inglês. Estava sedento por aprendizagem. Toda noite ao chegar em casa, sentava-me com a minha família inglesa e, durante o jantar, educadamente perguntavam o que havia feito durante o dia. Pacientemente, ouviam-me descrever tudo com riqueza de detalhes. Até me arrisquei a contar histórias do Brasil, perguntar sobre cultura e tentar compreender as explicações, muitas vezes com vozes se sobrepondo umas as outras, no melhor estilo latino.

Nossos jantares eram barulhentos e divertidos. Incontáveis vezes, ao lançar mão de uma estratégia muito comum entre aprendizes de línguas estrangeiras – conhecida por embromation –, fui o pivô de sonoras gargalhadas. Lembro quando perguntei, enquanto comíamos algo delicioso preparado por David, se eles tinham algum livro que falasse de Jack, o Estripador. Ora bolas, sem titubear lancei: Jack, the Stripper. Como assim?! Seria Jack um Go-Go Boy ao invés de um serial killer? Como assim?!

A inspiração para superar sozinho os percalços durante a minha primeira viagem internacional veio das palavras de um notório inglês nascido em Shrewsbury, capital do condado de Shropshire. Darwin disse algo como: “na luta pela sobrevivência, o mais forte permanece porque foi capaz de se adaptar melhor ao meio-ambiente.”

Sobrevivi à experiência em Exeter de maneira mais tranquila do que geralmente filhos sobrevivem aos próprios pais. Calma, não estou insinuando que os pais são facínoras ou coisa parecida. Infelizmente filhos não nascem com manual de instruções. É tudo na tentativa e erro. E quem paga o pato?

Nana, minha irmã mais velha, primeira filha de uma jovem mãe de 25 anos, nos primeiros dias vida, esperneava incessantemente durante os banhos. Foi quando Diva, minha avó e madrinha, progenitora do meu progenitor, num belo dia, foi auxiliar a nora no banho da primeira neta. Ao tocar a água da banheirinha...

- Mas, Nídia, esta água está muito quente!

Em outras palavras, Nana vinha, paulatinamente, sendo cozinhada. Sobreviveu e além de ser mãe de Bia, está prestes a me dar minha segunda sobrinha nos próximos meses. Só Deus sabe o que estas duas crianças enfrentarão até chegar à idade adulta. Cozimento, com certeza não será um problema.

O maior de todos os sobreviventes da família Lubisco, até então, é Marcelo, o Celão, filho do irmão de minha mãe, Tio Carlos, o Mamute, e da Tia Marisa. É simplesmente um milagre que ele funcione dentro dos padrões de normalidade...

Certa feita, durante a tenra infância, chegou um convite da escolinha convocando todos os alunos do primário para participar da festinha de páscoa à fantasia. Tia Marisa, mãe caprichosa, confeccionou uma fantasia de Coelhinho da Páscoa, com direito a orelhinhas acolchoadas e pompom à guisa de rabo. Uma verdadeira obra de arte.

Na quarta-feira, logo cedo, a zelosa mamãe aprontou o filho e o levou para o esperado evento. Beijinho na testa, aperto na bochecha e um “vai, Celo, que tu estás lindo, meu filho”.

Estranhamente, os poucos alunos como quem cruzou no pátio não estavam fantasiados. Mas como ele chegara com aproximadamente trinta minutos de antecedência para o início das aulas, eram, com certeza, uns bobocas que não sabiam brincar.

Assim que a professora chegou à sala de aula, falou:

- Marcelo, linda fantasia. Tão cheia de detalhes...

- Minha mãe que fez todinha.

- Que bacana. Prá festinha da Páscoa, não foi?

- Foi.

- Pena que é na quarta-feira que vem.

- ...


Esta crônica foi revisada por N. Lubisco

domingo, 20 de setembro de 2009

PARCERIAS ACIDENTAIS


Eu conheci Leila quando éramos graduandos de Língua Estrangeira (inglês) no Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia. Naquela época, eu tinha alguns bons quilos a menos e ela, cabelo cacheado. Na verdade, não era somente cacheado, era cacheaaaaaaado prá caralho! Em ocasiões especiais, tipo casamentos ou formaturas, minha querida e estimada amiga alisava as madeixas. O resultado era inacreditável. Os cachos que pendiam à altura dos ombros se transformavam em longa melena de cabelo liso até abaixo da cintura.


Não havia, então, essa coisa de escova progressiva, inteligente, chapinha, nada disso. Se a mulher decidisse desfilar por aí de Morticia Adams, tinha que fugir da água como o diabo da cruz. Bastava uma mísera gotinha e todo o investimento ia literalmente por água abaixo. Havia casos de garotas sem lavar a cabeça por uma semana só pra manter a pose.


Leila sempre trabalhou duro. Lembro quando era professora do curso de extensão da UFBA e ensinava zilhões de turmas, inclusive noturnas. Numa sexta-feira ela tinha uma festa de casamento para ir depois do serviço, e por isso, deu aula toda emperiquitada e, obviamente, com o cabelo mais liso que pele de bumbum de bebê. Assim que a sineta indicando o fim da labuta tocou, correu para o estacionamento. Foi quando percebeu que chovia. Chovia, não. Era, na verdade, um chuviscozinho de nada, mas que para alguém com escova recém feita era uma catástrofe metereológica.


Uma outra pessoa apavorar-se-ia. Leila, contudo, prevenida e sábia que é, sequer titubeou. Mesmo observada por diversos alunos que tinham sido liberados pelos seus teachers, enfiou a mão na bolsa e sacou uma toca de banho amarela, fez um coque e a vestiu. Cris, nossa amiga, estupefata, entre soluços de tanto gargalhar, perguntou se ela ia fazer aquilo mesmo. Sem perder a pose, respondeu:


- Minha filha, só eu sei o quanto custou essa escova.


E, pisando firme, foi em direção ao seu carro.


Por um motivo ou outro, a vida nos levou para caminhos distintos, embora um sempre sabendo, no mínimo, das andanças do outro. Voltamos a ser colegas em um curso de especialização em inglês oferecido pela UNIFACS. Eram módulos semanais, uma vez por mês, durante um ano e meio. As aulas eram das 18h às 22h. Uma brutalidade! Depois de um dia inteiro de trabalho, ainda encarar quatro horas de aula parecia piada de mau gosto... e era.


Felizmente, Leiloca estava lá comigo. Além de ter sido o meu porto seguro no meio de tanta mediocridade, foi minha parceira de trabalhos acadêmicos. No decorrer do curso descobrimos mais esta rara afinidade. Quem nunca teve um colega ansiando para pongar no esforço alheio e, no final das contas, receber uma boa nota? Há até os que são comprometidos, estudiosos, inteligentes, dispostos a dividir as tarefas mas, desafortunadamente, não têm menor afinidade conosco. Neste caso, mesmo o resultado sendo excelente, o trajeto é infernal. Por isso eu e Leiloca não desgrudávamos e, com exceção do famigerado Trabalho de Conclusão de Curso - quando fui trocado por uma loura paranaense - fizemos todas as avaliações conjuntamente. Eu com a percepção do todo, mais holístico, e ela, precisa, detalhista. Que dupla!


A nossa parceria não chegou a ser um marco, apesar de termos sido, sem modéstia alguma, referência para os colegas daquela turma de especialização em 2004/2005.


Outras duplas tiveram papel um pouco mais importante do que o nosso na história contemporânea cultural do ocidente. Talvez a mais conhecida e influente seja a de Lennon/McCartney que assinaram, para o bem e para o mal, a imensa maioria das composições de certa banda - que ficou conhecida pelo nome de The Beatles - surgida em uma cidade industrial ao norte da maior ilha britânica.


And when the night is cloudy,
There is still a light that shines on me,
Shine on until tomorrow, let it be.
I wake up to the sound of music
Mother Mary comes to me
There will be no sorrow, let it be.

(Let It Be, 1969 )


Há inúmeras parcerias de sucesso em âmbito nacional ou até intergaláctico. Simon e Garfunkel ainda me entorpecem quando escuto talvez uma das minhas canções prediletas,


Hello darkness, my old friend,
I’ve come to talk with you again,
Because a vision softly creeping,
Left its seeds while I was sleeping,
And the vision that was planted in my brain
Still remains
Within the sound of silence

(The Sound of Silence,1964)


“Que puera es esta!?”, diriam meus amigos argentinos. Arrepia até minha unha, na moral!

Não falar de Roberto e Erasmo seria um crime imperdoável, assim como dissertar longamente a respeito deles é chover no molhado. O que dizer dos caras que compuseram:


Porque me arrasto aos seus pés?

Por que me dou tanto assim?

E por que não peço em troca

Nada de volta pra mim?

Por que é que eu fico calado

Enquanto você me diz

Palavras que me machucam

Por coisas que eu nunca fiz?

(Desabafo, 1979)


Ou...


(...) e você amada amante

Faz da vida um instante

Ser demais para nós dois.

(Amada Amante, 1971)


E ainda...


(...) é tão difícil

Olhar o mundo e ver

O que ainda existe

Pois sem você

Meu mundo é diferente

Minha alegria é triste


(As Canções Que Você Fez Pra Mim , 1969)


Também...


(...) nossa chama outra vez tão acesa

E o café esfriando na mesa

Esquecemos de tudo

Sem me importar

Com o tempo correndo lá fora

Amanhã nosso amor não tem hora

Vou ficar por aqui


(Café Da Manhã, 1978)


Sem contar a mais impressionante ode à putaria da história...


Eu quero ser sua canção

Eu quero ser seu tom

Me esfregar na sua boca

Ser o seu batom (- Como assim, Bob Charles? Como assim, Erasmão?)

O sabonete que te alisa

Embaixo do chuveiro

A toalha que desliza

No seu corpo inteiro (- Macacos me mordam, Batman!)

Eu quero ser seu travesseiro

E ter a noite inteira

Pra te beijar durante o tempo que você dormir (- Santa sacanagem, menino prodígio!)

(...) você é o doce que eu mais gosto

Meu café completo

A bebida preferida e o prato predileto

Eu como e bebo do melhor

E não tenho hora certa

De manhã, de tarde, à noite

Não faço dieta (escataploft, caí da cadeira!).

(Cama e Mesa,1981)


Além do maior tapa na cara de todos os tempos...


(...) meu bem, meu bem

Use a inteligência uma vez só

Quantos idiotas vivem só

Sem ter amor

E você vai ficar também sozinha

E eu sei porque

Sua estupidez não lhe deixa ver

Que eu te amo

(Sua Estupidez, 1969)


Ainda em território brasileiro, seguindo a sina de milhares de nordestinos, saído de Recife para o eixo Rio-SP, Ivanilton de Souza Lima, mais conhecido como Michael Sullivans, em 1979 conheceu Paulo Massadas, com quem veio formar, possivelmente, uma das mais tocadas duplas dos anos 80 nas AMs e FMs deste país tropical. Os dois até chegaram a colocar suas próprias vozes em algumas canções, tanto na banda The Fevers, quanto como dupla mesmo que, apesar de ter um pé atolado na lama da breguice, não era sertaneja.


Entretanto, as arrasadoras combinações entre letra, melodia e harmonia de Sullivans e Massadas galgaram sucesso, de fato, nas vozes de outros intérpretes. Foi assim com Dia de Domingo, gravada por Gal Costa com participação de Tim Maia, em 1996:


Faz de conta que ainda é cedo
Tudo vai ficar
Por conta da emoção
Faz de conta que ainda é cedo
E deixar falar
A voz do coração


Em 1983, o Eterno Síndico, imortalizou Me Dê Motivo:


Mê de motivo, foi jogo sujo
E agora eu fujo, pra não sofrer
Fui teu amigo, te dei o mundo
Você foi fundo, quis me perder
Agora é tarde, não tem mais jeito
O teu defeito, não tem perdão
Eu vou a luta, que a vida é curta
Não vale a pena, sofrer em vão


Fagner, com a devida autorização, emprestou sua voz anasalada para Deslizes, em 1987:


E é só assim
Que eu perdôo
Os teus deslizes
E é assim o nosso
Jeito de viver
E em outros braços
Tu resolves tuas crises
Em outras bocas
Não consigo te esquecer
Te esquecer...


No mesmo ano, a maranhense Alcione, com sua voz marcante, fez de Estranha Loucura um grande sucesso:


Minha estranha loucura
é tentar te entender e não ser entendida
É ficar com você
Procurando fazer parte da tua vida
Minha estranha loucura
É tentar desculpar o que não tem desculpa
É fazer dos teus erros
Num motivo qualquer a razão da minha culpa


A flamenguista doente (argh!), Sandra de Sá, em 1986, emplacou Joga Fora:


É!
Cansei já não dá mais
Você pisou demais
Prá frente é que se anda
A vida leva e traz...

A paz que eu quero ter
Tão longe de você
Eu sei que vai ser duro
Mas tenho que esquecer...


Toda uma geração, em 1985, cantou com o Trem da Alegria Uni Duni Tê:


Eu quis saber da minha estrela-guia
Onde andaria meu sonho encantado
Fada-madrinha, vara de condão

Esse meu coração sonhando acordado


Maria das Graças que era sucesso entre os altinhos em 1982 quando estrelou com Vera Fisher o filme Amor Estranho Amor, tornou-se a Rainha dos Baixinhos e encantou como ninguém Arco-Íris:


Vou pintar um arco-íris de energia
Pra deixar o mundo cheio de alegria
Se tá feio ou dividido
Vai ficar tão colorido
O que vale nessa vida é ser feliz
Com o azul eu vou sentir tranqüilidade
O laranja tem sabor de amizade
Com o verde eu tenho a esperança
Que existe em qualquer criança
E enfeitar o céu nas cores do amor
No amarelo um sorriso
Pra iluminar feito o sol tem o seu lugar
Brilha dentro da gente
Violeta mais uma cor que já vai chegar
O vermelho pra completar meu arco-íris no ar


(A propósito, o arco-íris não tem sete cores?)


Houve sucessos ainda com Roberto Carlos, Joanna, Paulo Ricardo, José Augusto, Patrícia Marx, Roupa Nova, Simone e Fafá de Belém!. Em 1987, somente perdendo para o Rei Roberto, estavam em segundo lugar na lista de arrecadação do Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição), orgão coletor dos direitos autorais no Brasil. Os caras eram fora de série!


Assim como há músicas incidentais, há, também, parcerias acidentais. Estas, ao contrário das intencionais, estão condenadas ao ostracismo, apesar da genialidade latente ocultada pelo anonimato. São vítimas desta indústria fonográfica nefasta que privilegia o produto de fácil aceitação mercadológica em detrimento da necesidade artística de expressão urgente.

O mundo está densamente povoado por estes compositores anônimos que, dia após dia, subvertem a arte e recriam obras, muitas vezes, já estabelecidas. Eles vivenciam intuitivamente a proposta antropofágica da Semana de Arte Moderna de 1922.


Jonga, amigo de longas datas, tem uma parceria com os italianos Giancarlo Bigazzi /Umberto Tozzi, compositores de Pequena Eva, cuja versão de M. Ficoreli para o português ficou conhecida através da extinta banda Rádio Táxi e, mais recentemente, pelo vozeirão de Ivete Sangalo, quando ainda era da Banda Eva. Quem nunca cantou “...sou Adão e você será minha pequena Eva”? Jonga, nunca! Ele cantava, “ suadão e você será...”. Como assim suadão, man!? Como assim?!


Karine, amiga de infância, hoje casada e vivendo em Lisboa, tem uma parceria nada modesta: Erasmo e Roberto. Mesmo Que Seja Eu foi gravada também por Marina Lima, numa versão cool, bem anos 80, cheia de saxofone e aquele inconfundível som de bateria eletrônica. Não é ruim, mas confesso que prefiro na voz do Tremendão. Não me parece ter pretensões sofisticadas. A linha de baixo na cara, a guitarra cheia de chorus e o teclado, provavelmente um DX7 da Yamaha, dão o tom genuinamente brega à canção. Sensacional. Bom mesmo, entretanto, era ouvir Karine cantando a plenos pulmões:


(...) Filosofia é poesia é o que dizia a minha vó
Antes mal acompanhada do que só
Você precisa de um homem pra chamar Dirceu
Mesmo que esse homem seja eu.


Djavan já fez muita coisa exepcional! Nos últimos anos parece ter ligado o piloto automático e está cada vez mais parecido com o próprio sósia, Jorge Vercilo. Uma lástima! Quando eu ainda estudava no segundo grau da Escola Teresa de Lisieux, aqui em Salvador, tinha um colega que, enquanto eu e minha trupe ouvíamos Rock, ele se aplicava com doses cavalares de MPB. E para piorar, Alan ainda tirava as músicas de ouvido. Não havia essa moleza de cifras na internet. Ou tinha a sorte de achar uma revistinha com a música desejada ou era no ouvidão mesmo.


Numa roda de violão, que sempre acontecia na hora do intervalo, Alan, cheio de si, nos presenteou com Açaí, parceria dele com o paraibano Djavan. O refrão dizia assim:


Ao sair do avião

Zum de besouro, um irmão

Branco é às dez da manhã.


Como, à época, não conhecia a música, achei a letra um pouco nonsense, mas nada que incomodasse, afinal, os versos de Zanzibar (Armandinho e Fausto Nilo) já me eram familiares. E, cá entre nós, nada pode ser mais estranho do que:


Aliás bazar da coisa azul
Meu “only you”
É muito mais que o azul de Zanzibar
Paracuru
O azul da estrela


Anos depois, por acaso, ao ouvir no rádio Djavan cantando, percebi que havia uma discrepância entre a versão dele a do meu colega. Pequisei e descobri que uma faz tanto sentido quanto a outra.


Minha irmã, Kika, a mais nova, tem duas parcerias. A primeira não é exclusiva, mas nem por isso menos interessante. Juntamente com Marcelo Fromer, Nando Reis, Sérgio Britto e Ciro Pessoa, a caçula da casa entoava sem pudor:


Desde os primórdios
Até hoje em dia

O homem ainda faz
O que o macaco fazia
Eu não trabalhava, eu não sabia,
O homem criava e também destruía
Homem Que Mata
Capitalismo Selvagem


Esta música, intitulada Homem Primata, faz parte do álbum Cabeça Dinossauro lançado pelos Titãs, em 1986.


O segundo encontro musical... bem, como dizer? É o meu favorito e me enche de orgulho pela sofisticação e, acima de tudo, pelo parceiro: um tal de Francisco Buarque de Hollanda.


Em 1976, ele lançou Meus Caros Amigos, no qual canta O Que Será (À Flor da Pele) com Milton Nascimento. Tem também Olhos nos Olhos, além de Vai Trabalhar Vagabundo, Passaredo e A Noiva da Cidade.


Porém, entre tantas canções, é a segunda do lado A, em parceria com minha-irmãzinha-e-extraordinária-letrista-d’avant-garde, Kika, que salta aos olhos (ouvidos?): Mulheres de Atenas.

Como esse Chico Buarque canta, nem me lembro mais. Apenas deleito-me com:


Mira ensina exemplos

Àquelas mulheres de Atenas...

Ai, ai, Kika!


Texto revisado por mainha