Eu conheci Leila quando éramos graduandos de Língua Estrangeira (inglês) no Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia. Naquela época, eu tinha alguns bons quilos a menos e ela, cabelo cacheado. Na verdade, não era somente cacheado, era cacheaaaaaaado prá caralho! Em ocasiões especiais, tipo casamentos ou formaturas, minha querida e estimada amiga alisava as madeixas. O resultado era inacreditável. Os cachos que pendiam à altura dos ombros se transformavam em longa melena de cabelo liso até abaixo da cintura.
Não havia, então, essa coisa de escova progressiva, inteligente, chapinha, nada disso. Se a mulher decidisse desfilar por aí de Morticia Adams, tinha que fugir da água como o diabo da cruz. Bastava uma mísera gotinha e todo o investimento ia literalmente por água abaixo. Havia casos de garotas sem lavar a cabeça por uma semana só pra manter a pose.
Leila sempre trabalhou duro. Lembro quando era professora do curso de extensão da UFBA e ensinava zilhões de turmas, inclusive noturnas. Numa sexta-feira ela tinha uma festa de casamento para ir depois do serviço, e por isso, deu aula toda emperiquitada e, obviamente, com o cabelo mais liso que pele de bumbum de bebê. Assim que a sineta indicando o fim da labuta tocou, correu para o estacionamento. Foi quando percebeu que chovia. Chovia, não. Era, na verdade, um chuviscozinho de nada, mas que para alguém com escova recém feita era uma catástrofe metereológica.
Uma outra pessoa apavorar-se-ia. Leila, contudo, prevenida e sábia que é, sequer titubeou. Mesmo observada por diversos alunos que tinham sido liberados pelos seus teachers, enfiou a mão na bolsa e sacou uma toca de banho amarela, fez um coque e a vestiu. Cris, nossa amiga, estupefata, entre soluços de tanto gargalhar, perguntou se ela ia fazer aquilo mesmo. Sem perder a pose, respondeu:
- Minha filha, só eu sei o quanto custou essa escova.
E, pisando firme, foi em direção ao seu carro.
Por um motivo ou outro, a vida nos levou para caminhos distintos, embora um sempre sabendo, no mínimo, das andanças do outro. Voltamos a ser colegas em um curso de especialização em inglês oferecido pela UNIFACS. Eram módulos semanais, uma vez por mês, durante um ano e meio. As aulas eram das 18h às 22h. Uma brutalidade! Depois de um dia inteiro de trabalho, ainda encarar quatro horas de aula parecia piada de mau gosto... e era.
Felizmente, Leiloca estava lá comigo. Além de ter sido o meu porto seguro no meio de tanta mediocridade, foi minha parceira de trabalhos acadêmicos. No decorrer do curso descobrimos mais esta rara afinidade. Quem nunca teve um colega ansiando para pongar no esforço alheio e, no final das contas, receber uma boa nota? Há até os que são comprometidos, estudiosos, inteligentes, dispostos a dividir as tarefas mas, desafortunadamente, não têm menor afinidade conosco. Neste caso, mesmo o resultado sendo excelente, o trajeto é infernal. Por isso eu e Leiloca não desgrudávamos e, com exceção do famigerado Trabalho de Conclusão de Curso - quando fui trocado por uma loura paranaense - fizemos todas as avaliações conjuntamente. Eu com a percepção do todo, mais holístico, e ela, precisa, detalhista. Que dupla!
A nossa parceria não chegou a ser um marco, apesar de termos sido, sem modéstia alguma, referência para os colegas daquela turma de especialização em 2004/2005.
Outras duplas tiveram papel um pouco mais importante do que o nosso na história contemporânea cultural do ocidente. Talvez a mais conhecida e influente seja a de Lennon/McCartney que assinaram, para o bem e para o mal, a imensa maioria das composições de certa banda - que ficou conhecida pelo nome de The Beatles - surgida em uma cidade industrial ao norte da maior ilha britânica.
And when the night is cloudy,
There is still a light that shines on me,
Shine on until tomorrow, let it be.
I wake up to the sound of music
Mother Mary comes to me
There will be no sorrow, let it be.
(Let It Be, 1969 )
Há inúmeras parcerias de sucesso em âmbito nacional ou até intergaláctico. Simon e Garfunkel ainda me entorpecem quando escuto talvez uma das minhas canções prediletas,
Hello darkness, my old friend,
I’ve come to talk with you again,
Because a vision softly creeping,
Left its seeds while I was sleeping,
And the vision that was planted in my brain
Still remains
Within the sound of silence
(The Sound of Silence,1964)
“Que puera es esta!?”, diriam meus amigos argentinos. Arrepia até minha unha, na moral!
Não falar de Roberto e Erasmo seria um crime imperdoável, assim como dissertar longamente a respeito deles é chover no molhado. O que dizer dos caras que compuseram:
Porque me arrasto aos seus pés?
Por que me dou tanto assim?
E por que não peço em troca
Nada de volta pra mim?
Por que é que eu fico calado
Enquanto você me diz
Palavras que me machucam
Por coisas que eu nunca fiz?
(Desabafo, 1979)
Ou...
(...) e você amada amante
Faz da vida um instante
Ser demais para nós dois.
(Amada Amante, 1971)
E ainda...
(...) é tão difícil
Olhar o mundo e ver
O que ainda existe
Pois sem você
Meu mundo é diferente
Minha alegria é triste
(As Canções Que Você Fez Pra Mim , 1969)
Também...
(...) nossa chama outra vez tão acesa
E o café esfriando na mesa
Esquecemos de tudo
Sem me importar
Com o tempo correndo lá fora
Amanhã nosso amor não tem hora
Vou ficar por aqui
(Café Da Manhã, 1978)
Sem contar a mais impressionante ode à putaria da história...
Eu quero ser sua canção
Eu quero ser seu tom
Me esfregar na sua boca
Ser o seu batom (- Como assim, Bob Charles? Como assim, Erasmão?)
O sabonete que te alisa
Embaixo do chuveiro
A toalha que desliza
No seu corpo inteiro (- Macacos me mordam, Batman!)
Eu quero ser seu travesseiro
E ter a noite inteira
Pra te beijar durante o tempo que você dormir (- Santa sacanagem, menino prodígio!)
(...) você é o doce que eu mais gosto
Meu café completo
A bebida preferida e o prato predileto
Eu como e bebo do melhor
E não tenho hora certa
De manhã, de tarde, à noite
Não faço dieta (escataploft, caí da cadeira!).
(Cama e Mesa,1981)
Além do maior tapa na cara de todos os tempos...
(...) meu bem, meu bem
Use a inteligência uma vez só
Quantos idiotas vivem só
Sem ter amor
E você vai ficar também sozinha
E eu sei porque
Sua estupidez não lhe deixa ver
Que eu te amo
(Sua Estupidez, 1969)
Ainda em território brasileiro, seguindo a sina de milhares de nordestinos, saído de Recife para o eixo Rio-SP, Ivanilton de Souza Lima, mais conhecido como Michael Sullivans, em 1979 conheceu Paulo Massadas, com quem veio formar, possivelmente, uma das mais tocadas duplas dos anos 80 nas AMs e FMs deste país tropical. Os dois até chegaram a colocar suas próprias vozes em algumas canções, tanto na banda The Fevers, quanto como dupla mesmo que, apesar de ter um pé atolado na lama da breguice, não era sertaneja.
Entretanto, as arrasadoras combinações entre letra, melodia e harmonia de Sullivans e Massadas galgaram sucesso, de fato, nas vozes de outros intérpretes. Foi assim com Dia de Domingo, gravada por Gal Costa com participação de Tim Maia, em 1996:
Faz de conta que ainda é cedo
Tudo vai ficar
Por conta da emoção
Faz de conta que ainda é cedo
E deixar falar
A voz do coração
Em 1983, o Eterno Síndico, imortalizou Me Dê Motivo:
Mê de motivo, foi jogo sujo
E agora eu fujo, pra não sofrer
Fui teu amigo, te dei o mundo
Você foi fundo, quis me perder
Agora é tarde, não tem mais jeito
O teu defeito, não tem perdão
Eu vou a luta, que a vida é curta
Não vale a pena, sofrer em vão
Fagner, com a devida autorização, emprestou sua voz anasalada para Deslizes, em 1987:
E é só assim
Que eu perdôo
Os teus deslizes
E é assim o nosso
Jeito de viver
E em outros braços
Tu resolves tuas crises
Em outras bocas
Não consigo te esquecer
Te esquecer...
No mesmo ano, a maranhense Alcione, com sua voz marcante, fez de Estranha Loucura um grande sucesso:
Minha estranha loucura
é tentar te entender e não ser entendida
É ficar com você
Procurando fazer parte da tua vida
Minha estranha loucura
É tentar desculpar o que não tem desculpa
É fazer dos teus erros
Num motivo qualquer a razão da minha culpa
A flamenguista doente (argh!), Sandra de Sá, em 1986, emplacou Joga Fora:
É!
Cansei já não dá mais
Você pisou demais
Prá frente é que se anda
A vida leva e traz...
A paz que eu quero ter
Tão longe de você
Eu sei que vai ser duro
Mas tenho que esquecer...
Toda uma geração, em 1985, cantou com o Trem da Alegria Uni Duni Tê:
Eu quis saber da minha estrela-guia
Onde andaria meu sonho encantado
Fada-madrinha, vara de condão
Esse meu coração sonhando acordado
Maria das Graças que era sucesso entre os altinhos em 1982 quando estrelou com Vera Fisher o filme Amor Estranho Amor, tornou-se a Rainha dos Baixinhos e encantou como ninguém Arco-Íris:
Vou pintar um arco-íris de energia
Pra deixar o mundo cheio de alegria
Se tá feio ou dividido
Vai ficar tão colorido
O que vale nessa vida é ser feliz
Com o azul eu vou sentir tranqüilidade
O laranja tem sabor de amizade
Com o verde eu tenho a esperança
Que existe em qualquer criança
E enfeitar o céu nas cores do amor
No amarelo um sorriso
Pra iluminar feito o sol tem o seu lugar
Brilha dentro da gente
Violeta mais uma cor que já vai chegar
O vermelho pra completar meu arco-íris no ar
(A propósito, o arco-íris não tem sete cores?)
Houve sucessos ainda com Roberto Carlos, Joanna, Paulo Ricardo, José Augusto, Patrícia Marx, Roupa Nova, Simone e Fafá de Belém!. Em 1987, somente perdendo para o Rei Roberto, estavam em segundo lugar na lista de arrecadação do Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição), orgão coletor dos direitos autorais no Brasil. Os caras eram fora de série!
Assim como há músicas incidentais, há, também, parcerias acidentais. Estas, ao contrário das intencionais, estão condenadas ao ostracismo, apesar da genialidade latente ocultada pelo anonimato. São vítimas desta indústria fonográfica nefasta que privilegia o produto de fácil aceitação mercadológica em detrimento da necesidade artística de expressão urgente.
O mundo está densamente povoado por estes compositores anônimos que, dia após dia, subvertem a arte e recriam obras, muitas vezes, já estabelecidas. Eles vivenciam intuitivamente a proposta antropofágica da Semana de Arte Moderna de 1922.
Jonga, amigo de longas datas, tem uma parceria com os italianos Giancarlo Bigazzi /Umberto Tozzi, compositores de Pequena Eva, cuja versão de M. Ficoreli para o português ficou conhecida através da extinta banda Rádio Táxi e, mais recentemente, pelo vozeirão de Ivete Sangalo, quando ainda era da Banda Eva. Quem nunca cantou “...sou Adão e você será minha pequena Eva”? Jonga, nunca! Ele cantava, “ suadão e você será...”. Como assim suadão, man!? Como assim?!
Karine, amiga de infância, hoje casada e vivendo em Lisboa, tem uma parceria nada modesta: Erasmo e Roberto. Mesmo Que Seja Eu foi gravada também por Marina Lima, numa versão cool, bem anos 80, cheia de saxofone e aquele inconfundível som de bateria eletrônica. Não é ruim, mas confesso que prefiro na voz do Tremendão. Não me parece ter pretensões sofisticadas. A linha de baixo na cara, a guitarra cheia de chorus e o teclado, provavelmente um DX7 da Yamaha, dão o tom genuinamente brega à canção. Sensacional. Bom mesmo, entretanto, era ouvir Karine cantando a plenos pulmões:
(...) Filosofia é poesia é o que dizia a minha vó
Antes mal acompanhada do que só
Você precisa de um homem pra chamar Dirceu
Mesmo que esse homem seja eu.
Djavan já fez muita coisa exepcional! Nos últimos anos parece ter ligado o piloto automático e está cada vez mais parecido com o próprio sósia, Jorge Vercilo. Uma lástima! Quando eu ainda estudava no segundo grau da Escola Teresa de Lisieux, aqui em Salvador, tinha um colega que, enquanto eu e minha trupe ouvíamos Rock, ele se aplicava com doses cavalares de MPB. E para piorar, Alan ainda tirava as músicas de ouvido. Não havia essa moleza de cifras na internet. Ou tinha a sorte de achar uma revistinha com a música desejada ou era no ouvidão mesmo.
Numa roda de violão, que sempre acontecia na hora do intervalo, Alan, cheio de si, nos presenteou com Açaí, parceria dele com o paraibano Djavan. O refrão dizia assim:
Ao sair do avião
Zum de besouro, um irmão
Branco é às dez da manhã.
Como, à época, não conhecia a música, achei a letra um pouco nonsense, mas nada que incomodasse, afinal, os versos de Zanzibar (Armandinho e Fausto Nilo) já me eram familiares. E, cá entre nós, nada pode ser mais estranho do que:
Aliás bazar da coisa azul
Meu “only you”
É muito mais que o azul de Zanzibar
Paracuru
O azul da estrela
Anos depois, por acaso, ao ouvir no rádio Djavan cantando, percebi que havia uma discrepância entre a versão dele a do meu colega. Pequisei e descobri que uma faz tanto sentido quanto a outra.
Minha irmã, Kika, a mais nova, tem duas parcerias. A primeira não é exclusiva, mas nem por isso menos interessante. Juntamente com Marcelo Fromer, Nando Reis, Sérgio Britto e Ciro Pessoa, a caçula da casa entoava sem pudor:
Desde os primórdios
Até hoje em dia
O homem ainda faz
O que o macaco fazia
Eu não trabalhava, eu não sabia,
O homem criava e também destruía
Homem Que Mata
Capitalismo Selvagem
Esta música, intitulada Homem Primata, faz parte do álbum Cabeça Dinossauro lançado pelos Titãs, em 1986.
O segundo encontro musical... bem, como dizer? É o meu favorito e me enche de orgulho pela sofisticação e, acima de tudo, pelo parceiro: um tal de Francisco Buarque de Hollanda.
Em 1976, ele lançou Meus Caros Amigos, no qual canta O Que Será (À Flor da Pele) com Milton Nascimento. Tem também Olhos nos Olhos, além de Vai Trabalhar Vagabundo, Passaredo e A Noiva da Cidade.
Porém, entre tantas canções, é a segunda do lado A, em parceria com minha-irmãzinha-e-extraordinária-letrista-d’avant-garde, Kika, que salta aos olhos (ouvidos?): Mulheres de Atenas.
Como esse Chico Buarque canta, nem me lembro mais. Apenas deleito-me com:
Mira ensina exemplos
Àquelas mulheres de Atenas...
Ai, ai, Kika!
Texto revisado por mainha







