Fazer aniversário em junho é uma merda. Nasci em 1974. Ainda hoje, quando afirmo ter começado a estudar inglês em 1996 aos 21 anos, sou corrigido: “Aos 22!”. A questão, meu caro, pensei eu, é que comecei meus estudos em fevereiro. Ou seja, ter sido parido no sexto dia do sexto mês me faz passar por um idiota incapaz de fazer uma subtração simples. Não faltam aqueles olhares do tipo: “como assim?! 96 - 74 = 22! Até uma criança iniciando a vida escolar sabe! Como assim, mermão?!”
Pois bem, em 1996, aos 21 anos e com o patrocínio de minha mãe, matriculei-me na Cultura Inglesa para iniciar meus estudos na língua falada na terra do Led Zeppelin. Na segunda aula (faltei a anterior) do meu terceiro semestre seguido de dedicação absoluta ao aprendizado do dialeto falado por Lady Di, Churchill, The Fab Four e David Beckham, conheci minha primeira professora falante nativa: Polianna.
Calada, passava por brasileira facilmente. A pele sempre bronzeada de sol tinha aquela cor de cabaça curtida; os olhos e os cabelos lisos, sempre soltos, ton sur ton, contrastavam suavemente com os ombros, invariavelmente à mostra; e as pernas - ai, ai, ai, aquelas pernas grossas - mesmo quando aceleravam em direção à classroom 4, desfilavam em câmera lenta sob minissaias desbotadas. O problema era quando falava. Daí, o sotaque tipicamente britânico nos dava a impressão de estar assistindo My fair lady.
Foi Poli quem me estimulou a fazer um curso intensivo de quatro semanas na Inglaterra, mais especificamente na ISCA School, em Exeter, no condado de Devon, região oeste da grande ilha. Ela havia trabalhado lá e fez excelentes recomendações da equipe de professores e do empregador, Mr. Richard Tomlison. E cá entre nós, pela natureza das relações trabalhistas, quando um ex-empregado atribui bons adjetivos ao ex-patrão é de se impressionar.
Em 1997, a internet era muito cara e muito lenta. Só havia, salvo engano, conexão discada. Sendo assim, todo o contato, desde a primeira consulta em relação a preços até o recibo de matrícula a ser apresentado na temida imigração inglesa, foi via carta.
Na última semana de janeiro de 1998, aos 23 anos, tendo somente nível intermediário de inglês, parti para a primeira aventura internacional on my own. Após troca de aeronave em Zurich, de bagagem extraviada, duas horas de ônibus entre London e Exeter e mais alguns minutos de táxi, finalmente cheguei à casa dos Piningtons, amável família que me hospedaria por exatos 28 dias.
Quem abriu a porta para mim foi Gill, a mãe, com um sorriso que somente mães sabem dar. David, o marido dela, chegou minutos depois acompanhado de Rose, 11 anos, e Harry, 9. Era uma família muito harmoniosa e receptiva, provando que estereótipos são tão úteis quanto narradores de futebol em transmissões televisivas.
Apesar do cansaço, após tão longa jornada, da melancolia resultante do primeiro contado com o frio de verdade e da incompetência linguística, consegui explicar para Gill que minha bagagem não chegara. A partir daí, ela assumiu o contato com a British Midland,intermediando, ponderando e esbravejando quando se fez necessário. No meu sétimo dia por aquelas bandas, numa manhã sem graça, Gill bateu à porta do meu quarto, como sempre fazia para eu não perder a hora da aula. Respondi que já estava acordado e agradeci. Ela, para minha surpresa, insistiu:
(Tecla SAP)
- Lubisco, você poderia abrir a porta, por favor?
- (Me enfiando dentro de uma calça e camiseta qualquer) Erm... sim, sim. Só um segundo, por favor...
- Ok.
Quando abri a porta, lá estava Gill, abraçada à minha bagagem que acabara de ser entregue pela companhia aérea e com um sorriso que só mães sabem dar! Largou meu mochilão no carpete sem dó nem piedade e me abraçou. Um abraço que só mães sabem dar.
Com pouco mais de duas semanas pelas terras do Scone & Cream, já andavasozinho pelo emaranhado de ruas do centro da cidade, visitava os pubs locais como um regular costumer e puxava conversa com estranhos só para treinar inglês. Estava sedento por aprendizagem. Toda noite ao chegar em casa, sentava-me com a minha família inglesa e, durante o jantar, educadamente perguntavam o que havia feito durante o dia. Pacientemente, ouviam-me descrever tudo com riqueza de detalhes. Até me arrisquei a contar histórias do Brasil, perguntar sobre cultura e tentar compreender as explicações, muitas vezes com vozes se sobrepondo umas as outras, no melhor estilo latino.
Nossos jantares eram barulhentos e divertidos. Incontáveis vezes, ao lançar mão de uma estratégia muito comum entre aprendizes de línguas estrangeiras – conhecida por embromation –, fui o pivô de sonoras gargalhadas. Lembro quando perguntei, enquanto comíamos algo delicioso preparado por David, se eles tinham algum livro que falasse de Jack, o Estripador. Ora bolas, sem titubear lancei: Jack, the Stripper. Como assim?! Seria Jack um Go-Go Boy ao invés de um serial killer? Como assim?!
A inspiração para superar sozinho os percalços durante a minha primeira viagem internacional veio das palavras de um notório inglês nascido em Shrewsbury, capital do condado de Shropshire. Darwin disse algo como: “na luta pela sobrevivência, o mais forte permanece porque foi capaz de se adaptar melhor ao meio-ambiente.”
Sobrevivi à experiência em Exeter de maneira mais tranquila do que geralmente filhos sobrevivem aos próprios pais. Calma, não estou insinuando que os pais são facínoras ou coisa parecida. Infelizmente filhos não nascem com manual de instruções. É tudo na tentativa e erro. E quem paga o pato?
Nana, minha irmã mais velha, primeira filha de uma jovem mãe de 25 anos, nos primeiros dias vida, esperneava incessantemente durante os banhos. Foi quando Diva, minha avó e madrinha, progenitora do meu progenitor, num belo dia, foi auxiliar a nora no banho da primeira neta. Ao tocar a água da banheirinha...
- Mas, Nídia, esta água está muito quente!
Em outras palavras, Nana vinha, paulatinamente, sendo cozinhada. Sobreviveu e além de ser mãe de Bia, está prestes a me dar minha segunda sobrinha nos próximos meses. Só Deus sabe o que estas duas crianças enfrentarão até chegar à idade adulta. Cozimento, com certeza não será um problema.
O maior de todos os sobreviventes da família Lubisco, até então, é Marcelo, o Celão, filho do irmão de minha mãe, Tio Carlos, o Mamute, e da Tia Marisa. É simplesmente um milagre que ele funcione dentro dos padrões de normalidade...
Certa feita, durante a tenra infância, chegou um convite da escolinha convocando todos os alunos do primário para participar da festinha de páscoa à fantasia. Tia Marisa, mãe caprichosa, confeccionou uma fantasia de Coelhinho da Páscoa, com direito a orelhinhas acolchoadas e pompom à guisa de rabo. Uma verdadeira obra de arte.
Na quarta-feira, logo cedo, a zelosa mamãe aprontou o filho e o levou para o esperado evento. Beijinho na testa, aperto na bochecha e um “vai, Celo, que tu estás lindo, meu filho”.
Estranhamente, os poucos alunos como quem cruzou no pátio não estavam fantasiados. Mas como ele chegara com aproximadamente trinta minutos de antecedência para o início das aulas, eram, com certeza, uns bobocas que não sabiam brincar.
Assim que a professora chegou à sala de aula, falou:
- Marcelo, linda fantasia. Tão cheia de detalhes...
Eu conheci Leila quando éramos graduandos de Língua Estrangeira (inglês) no Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia. Naquela época, eu tinha alguns bons quilos a menos e ela, cabelo cacheado. Na verdade, não era somente cacheado, era cacheaaaaaaado prá caralho! Em ocasiões especiais, tipo casamentos ou formaturas, minha querida e estimada amiga alisava as madeixas. O resultado era inacreditável. Os cachos que pendiam à altura dos ombros se transformavam em longa melena de cabelo liso até abaixo da cintura.
Não havia, então, essa coisa de escova progressiva, inteligente, chapinha, nada disso. Se a mulher decidisse desfilar por aí de Morticia Adams, tinha que fugir da água como o diabo da cruz. Bastava uma mísera gotinha e todo o investimento ia literalmente por água abaixo. Havia casos de garotas sem lavar a cabeça por uma semana só pra manter a pose.
Leila sempre trabalhou duro. Lembro quando era professora do curso de extensão da UFBA e ensinava zilhões de turmas, inclusive noturnas. Numa sexta-feira ela tinha uma festa de casamento para ir depois do serviço, e por isso, deu aula toda emperiquitada e, obviamente, com o cabelo mais liso que pele de bumbum de bebê. Assim que a sineta indicando o fim da labuta tocou, correu para o estacionamento. Foi quando percebeu que chovia. Chovia, não. Era, na verdade, um chuviscozinho de nada, mas que para alguém com escova recém feita era uma catástrofe metereológica.
Uma outra pessoa apavorar-se-ia. Leila, contudo, prevenida e sábia que é, sequer titubeou. Mesmo observada por diversos alunos que tinham sido liberados pelos seus teachers, enfiou a mão na bolsa e sacou uma toca de banho amarela, fez um coque e a vestiu. Cris, nossa amiga, estupefata, entre soluços de tanto gargalhar, perguntou se ela ia fazer aquilo mesmo. Sem perder a pose, respondeu:
- Minha filha, só eu sei o quanto custou essa escova.
E, pisando firme, foi em direção ao seu carro.
Por um motivo ou outro, a vida nos levou para caminhos distintos, embora um sempre sabendo, no mínimo, das andanças do outro. Voltamos a ser colegas em um curso de especialização em inglês oferecido pela UNIFACS. Eram módulos semanais, uma vez por mês, durante um ano e meio. As aulas eram das 18h às 22h. Uma brutalidade! Depois de um dia inteiro de trabalho, ainda encarar quatro horas de aula parecia piada de mau gosto... e era.
Felizmente, Leiloca estava lá comigo. Além de ter sido o meu porto seguro no meio de tanta mediocridade, foi minha parceira de trabalhos acadêmicos. No decorrer do curso descobrimos mais esta rara afinidade. Quem nunca teve um colega ansiando para pongar no esforço alheio e, no final das contas, receber uma boa nota? Há até os que são comprometidos, estudiosos, inteligentes, dispostos a dividir as tarefas mas, desafortunadamente, não têm menor afinidade conosco. Neste caso, mesmo o resultado sendo excelente, o trajeto é infernal. Por isso eu e Leiloca não desgrudávamos e, com exceção do famigerado Trabalho de Conclusão de Curso - quando fui trocado por uma loura paranaense - fizemos todas as avaliações conjuntamente. Eu com a percepção do todo, mais holístico, e ela, precisa, detalhista. Que dupla!
A nossa parceria não chegou a ser um marco, apesar de termos sido, sem modéstia alguma, referência para os colegas daquela turma de especialização em 2004/2005.
Outras duplas tiveram papel um pouco mais importante do que o nosso na história contemporânea cultural do ocidente. Talvez a mais conhecida e influente seja a de Lennon/McCartney que assinaram, para o bem e para o mal, a imensa maioria das composições de certa banda - que ficou conhecida pelo nome de The Beatles - surgida em uma cidade industrial ao norte da maior ilha britânica.
And when the night is cloudy,
There is still a light that shines on me,
Shine on until tomorrow, let it be.
I wake up to the sound of music
Mother Mary comes to me
There will be no sorrow, let it be.
Há inúmeras parcerias de sucesso em âmbito nacional ou até intergaláctico.Simon e Garfunkel ainda me entorpecem quando escuto talvez uma das minhas canções prediletas,
Hello darkness, my old friend,
I’ve come to talk with you again,
Because a vision softly creeping,
Left its seeds while I was sleeping,
And the vision that was planted in my brain
Still remains
Within the sound of silence
“Que puera es esta!?”, diriam meus amigos argentinos. Arrepia até minha unha, na moral!
Não falar de Roberto e Erasmo seria um crime imperdoável, assim como dissertar longamente a respeito deles é chover no molhado. O que dizer dos caras que compuseram:
Ainda em território brasileiro, seguindo a sina de milhares de nordestinos, saído de Recife para o eixo Rio-SP, Ivanilton de Souza Lima, mais conhecido como Michael Sullivans, em 1979 conheceu Paulo Massadas, com quem veio formar, possivelmente, uma das mais tocadas duplas dos anos 80 nas AMs e FMs deste país tropical. Os dois até chegaram a colocar suas próprias vozes em algumas canções, tanto na banda The Fevers, quanto como dupla mesmo que, apesar de ter um pé atolado na lama da breguice, não era sertaneja.
Entretanto, as arrasadoras combinações entre letra, melodia e harmonia de Sullivans e Massadasgalgaram sucesso, de fato,nas vozes de outros intérpretes. Foi assim com Dia de Domingo, gravada por Gal Costa com participação de Tim Maia, em 1996:
Faz de conta que ainda é cedo
Tudo vai ficar
Por conta da emoção
Faz de conta que ainda é cedo
E deixar falar
A voz do coração
Em 1983,o Eterno Síndico, imortalizou Me Dê Motivo:
Mê de motivo, foi jogo sujo
E agora eu fujo, pra não sofrer
Fui teu amigo, te dei o mundo
Você foi fundo, quis me perder
Agora é tarde, não tem mais jeito
O teu defeito, não tem perdão
Eu vou a luta, que a vida é curta
Não vale a pena, sofrer em vão
Fagner, com a devida autorização, emprestou sua voz anasalada para Deslizes, em 1987:
E é só assim
Que eu perdôo
Os teus deslizes
E é assim o nosso
Jeito de viver
E em outros braços
Tu resolves tuas crises
Em outras bocas
Não consigo te esquecer
Te esquecer...
No mesmo ano, a maranhense Alcione, com sua voz marcante, fez de Estranha Loucura um grande sucesso:
Minha estranha loucura
é tentar te entender e não ser entendida
É ficar com você
Procurando fazer parte da tua vida
Minha estranha loucura
É tentar desculpar o que não tem desculpa
É fazer dos teus erros
Num motivo qualquer a razão da minha culpa
A flamenguista doente (argh!), Sandra de Sá, em 1986, emplacou Joga Fora:
É!
Cansei já não dá mais
Você pisou demais
Prá frente é que se anda
A vida leva e traz...
A paz que eu quero ter
Tão longe de você
Eu sei que vai ser duro
Mas tenho que esquecer...
Toda uma geração, em 1985, cantou com o Trem da Alegria Uni Duni Tê:
Eu quis saber da minha estrela-guia
Onde andaria meu sonho encantado
Fada-madrinha, vara de condão
Esse meu coração sonhando acordado
Maria das Graças que era sucesso entre os altinhos em 1982 quando estrelou com Vera Fisher o filme Amor Estranho Amor, tornou-se a Rainha dos Baixinhos e encantou como ninguém Arco-Íris:
Vou pintar um arco-íris de energia
Pra deixar o mundo cheio de alegria
Se tá feio ou dividido
Vai ficar tão colorido
O que vale nessa vida é ser feliz
Com o azul eu vou sentir tranqüilidade
O laranja tem sabor de amizade
Com o verde eu tenho a esperança
Que existe em qualquer criança
E enfeitar o céu nas cores do amor
No amarelo um sorriso
Pra iluminar feito o sol tem o seu lugar
Brilha dentro da gente
Violeta mais uma cor que já vai chegar
O vermelho pra completar meu arco-íris no ar
(A propósito, o arco-íris não tem sete cores?)
Houve sucessos ainda com Roberto Carlos, Joanna, Paulo Ricardo, José Augusto, Patrícia Marx, Roupa Nova, Simone e Fafá de Belém!. Em 1987, somente perdendo para o Rei Roberto, estavam em segundo lugar na lista de arrecadação do Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição), orgão coletor dos direitos autorais no Brasil. Os caras eram fora de série!
Assim como há músicas incidentais, há, também, parcerias acidentais. Estas, ao contrário das intencionais, estão condenadas ao ostracismo, apesar da genialidade latente ocultada pelo anonimato. São vítimas desta indústria fonográfica nefasta que privilegia o produto de fácil aceitação mercadológica em detrimento da necesidade artística de expressão urgente.
O mundo está densamente povoado por estes compositores anônimos que, dia após dia, subvertem a arte e recriam obras, muitas vezes, já estabelecidas. Eles vivenciam intuitivamente a proposta antropofágica da Semana de Arte Moderna de 1922.
Jonga, amigo de longas datas, tem uma parceria com os italianos Giancarlo Bigazzi /Umberto Tozzi, compositores de Pequena Eva, cuja versão de M. Ficoreli para o português ficou conhecida através da extinta banda Rádio Táxi e, mais recentemente, pelo vozeirão de Ivete Sangalo, quando ainda era da Banda Eva. Quem nunca cantou “...sou Adão e você será minha pequena Eva”? Jonga, nunca! Ele cantava, “ suadão e você será...”. Como assim suadão, man!? Como assim?!
Karine, amiga de infância, hoje casada e vivendo em Lisboa, tem uma parceria nada modesta: Erasmo e Roberto. Mesmo Que Seja Eu foi gravada também por Marina Lima, numa versão cool, bem anos 80, cheia de saxofone e aquele inconfundível som de bateria eletrônica. Não é ruim, mas confesso que prefiro na voz do Tremendão. Não me parece ter pretensões sofisticadas. A linha de baixo na cara, a guitarracheia de chorus e o teclado, provavelmente um DX7 da Yamaha, dão o tom genuinamente brega à canção. Sensacional. Bom mesmo, entretanto, era ouvir Karine cantando a plenos pulmões:
(...) Filosofia é poesia é o que dizia a minha vó
Antes mal acompanhada do que só
Você precisa de um homem pra chamar Dirceu
Mesmo que esse homem seja eu.
Djavan já fez muita coisa exepcional! Nos últimos anos parece ter ligado o piloto automático e está cada vez mais parecido com o próprio sósia, Jorge Vercilo. Uma lástima! Quando eu ainda estudava no segundo grau da Escola Teresa de Lisieux, aqui em Salvador, tinha um colega que, enquanto eu e minha trupe ouvíamos Rock, ele se aplicava com doses cavalares de MPB. E para piorar, Alan ainda tirava as músicas de ouvido. Não havia essa moleza de cifras na internet. Ou tinha a sorte de achar uma revistinha com a música desejada ou era no ouvidão mesmo.
Numa roda de violão, que sempre acontecia na hora do intervalo, Alan, cheio de si, nos presenteou com Açaí, parceria dele com o paraibano Djavan. O refrão dizia assim:
Ao sair do avião
Zum de besouro, um irmão
Branco é às dez da manhã.
Como, à época, não conhecia a música, achei a letra um pouco nonsense, mas nada que incomodasse, afinal, os versos de Zanzibar (Armandinho e Fausto Nilo) já me eram familiares. E, cá entre nós, nada pode ser mais estranho do que:
Aliás bazar da coisa azul
Meu “only you”
É muito mais que o azul de Zanzibar
Paracuru
O azul da estrela
Anos depois, por acaso, ao ouvir no rádio Djavan cantando, percebi que havia uma discrepância entre a versão dele a do meu colega. Pequisei e descobri que uma faz tanto sentido quanto a outra.
Minha irmã, Kika, a mais nova, tem duas parcerias. A primeira não é exclusiva, mas nem por isso menos interessante. Juntamente com Marcelo Fromer, Nando Reis, Sérgio Britto e Ciro Pessoa, a caçula da casa entoava sem pudor:
Desde os primórdios
Até hoje em dia
O homem ainda faz
O que o macaco fazia
Eu não trabalhava, eu não sabia,
O homem criava e também destruía
Homem Que Mata
Capitalismo Selvagem
Esta música, intitulada Homem Primata, faz parte do álbum Cabeça Dinossauro lançado pelos Titãs, em 1986.
O segundo encontro musical... bem, como dizer? É o meu favorito e me enche de orgulho pela sofisticação e, acima de tudo, pelo parceiro: um tal de Francisco Buarque de Hollanda.
Em 1976, ele lançou Meus Caros Amigos, no qual canta O Que Será (À Flor da Pele) com Milton Nascimento. Tem também Olhos nos Olhos, além de Vai Trabalhar Vagabundo, Passaredo e A Noiva da Cidade.
Porém, entre tantas canções, é a segunda do lado A, em parceria com minha-irmãzinha-e-extraordinária-letrista-d’avant-garde, Kika, que salta aos olhos (ouvidos?): Mulheres de Atenas.
Como esse Chico Buarque canta, nem me lembro mais. Apenas deleito-me com:
A minha geração teve o privilégio de, na infância, ter acesso a programas televisivos que tratavam crianças como crianças e nos estimulavam a exercitar a fantasia, a imaginação e a criatividade.
Lembro quase nada – mas ainda lembro – de Vila Sésamo, com Armando Bogus e Sônia Braga. Amava aquele pássaro azul enorme, qual é o nome dele mesmo? Como é? Ai, meu Deus... já sei: Garibaldo! E tinha também Gugu, um boneco verde, todo rude, que morava numa lata de lixo.
Eu gostava mesmo era do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Recordo, com detalhes, dos personagens, cores, sons, melodias, texturas e, mais importante, dos sentimentos. Morria de medo da Cuca. Antes mesmo de ela aparecer, quando os primeiros acordes da sua música tema soavam, eu suava. “Cuidado com a Cuca / Que a Cuca te pega / E pega daqui / E pega de lá...” na voz de Dori Caymmi, me dava arrepios. Eu me escondia entre os almofadões da sala de televisão da nossa casa na Rua das Acácias e assistia, com as mãos protegendo o rosto, aos trechos em que aquele jacaré bípede de risada medonha aparecia.
Apesar deste temor ou, talvez, por causa dele, havia um rush de adrenalina que eu adorava. Se a Cuca não aparecesse num episódio, era como tomar sorvete mas não comer a casquinha. A gruta em que ela vivia era um fascínio. O caldeirão fumegante, as receitas com asa de morcego, arroto de lagartixa, pata de salamandra me faziam viajar por outros mundos; os planos maquiavélicos para capturar Pedrinho ou Narizinho me faziam imaginar as artimanhas que os protagonistas mirins lançariam mão para escapar.
Não era somente a Cuca que me amedrontava. Lembro de uma série de episódios com o Minotauro. Tive pesadelos com aquele gigante com tronco e membros de ser humano e cabeça de touro que se movimentava lentamente, soltava um urro macabro e morava num labirinto.
Algumas pessoas até se aventuravam pelo emaranhado de caminhos, mas, invariavelmente, se perdiam e terminavam capturadas por ele, o Mi-no-tau-ro. Putaquepariu!!!! Só de recordar estou agoniado. Surreal o efeito dessa memória em mim.
Parece bobagem, mas custei a começar a minha primeira leitura de Gabriel García Marquez exclusivamente por causa do título do livro que havia na segunda prateleira do quarto de minha mãe: O General Em Seu Labirinto. Como assim labirinto?! Como assim?!
Vencido o preconceito, devorei este romance que passeia entre o real e a ficção e, em poucos dias, fui completamente absorvido pela narrativa fluida, sofisticada e com imagens poéticas que somente Marquez é capaz de provocar. Precisei ler duas ou três vezes um trecho que descrevia um hediondo hábito de Bolívar, libertador venezuelano e protagonista da história, para acreditar que era aquilo mesmo que entendera: “... e solta ventosidades fétidas e pedregosas”.
Somente este autor colombiano nascido em 06 de março de 1927, ganhador do Nobel de literatura, seria capaz de descrever ataques de flatulência de maneira tão, tão... sei lá. Provavelmente nosso amado Jorge diria: “...e soltava uns peidos barulhentos que fechavam o comércio de Ilhéus por causa do fedor”.
Nomine como queira, o fato, querido leitor, é que todo mundo eventualmente solta um pum e, de acordo com uma entrevista a que assisti há alguns anos no Programa do Jô, 50% da população mundial sofre de flatulência. Um horror! Isso significa, leitor, que eu ou você somos acometidos por esse mal.
Não é apavorante saber que em uma sala de aula com 50 adolescentes frequentadores de redes de fast-food, metade regularmente expele os gases acumulados durante o processo de decomposição e fermentação dos resíduos orgânicos dentro do intestino? E no seu trabalho? Olhe ao seu redor. Quem esta aí com você? Dê uma olhada discreta e verifique se as mãos dele estão amareladas, pois, caso não seja você o responsável pelos traques – e tenho certeza que não é –, as estatísticas acusam seu colega aí!
E, para piorar, esta escatologia, ora revoltante, ora divertida e até lúdica, é um verdadeiro atentado ao meio-ambiente. Ao soltar uma farpa, o indivíduo também libera gás metano, de densidade menor que o oxigênio, altamente inflamável, incolor e que contribui 21 vezes mais do que o dióxido de carbono para o aumento do buraco na camada de ozônio e o efeito estufa. Ou seja, não há bufa inofensiva. Todas elas, em maior ou menor grau, contribuem para o aumento da temperatura do nosso planeta, Gaia.
Em 1991, quando cursava pela segunda vez o 1° ano colegial na Escola Teresa de Lisieux, conheci e me tornei grande amigo de Daniel Castelani e Max Demian. Vivíamos juntos e nos autointitulávamos Os Três Cabeludos, em referência à canção de Roberto e Erasmo, Os Sete Cabelos, que dizia: “Eu vinha no meu carro em doida disparara / Com sete cabeludos pra topar qualquer parada”. Hoje, não sei mais por onde Max anda, troco e-mails esporádicos com o Dani (assim com artigo definido mesmo, pois a família, vinda de Campinas, o utiliza como artigo e substantivo fossem o núcleo da frase nominal) e já não somos mais cabeludos.
Max, cujo nome foi escolhido por sua progenitora, D. Robervanise, uma figuraça de 1,48m, após ler Demian de Herman Hesse, vivia nos provendo com questões intrigantes. Uma delas, pivô de profundas discussões, foi:
– Se você tá dançando com a menina... música lenta, coisa e tal, daí sente aquela bolha de gás rogando por sair instantaneamente e não dá mais pra segurar... Você prefere um peido barulhento e sem cheiro ou fedorento e silencioso? – Porra, sei lá. Barulhento? Talvez a música cubra o som do porrote se o cara conseguir controlar saída. – Silencioso e fedorento é bem melhor! Antes de largar a bagaceira, você sugere beber um drink com menina. Daí cê se alivia, pega ela pela mão e evade o local prontamente. Ah, não se esqueça de dar uma pirueta sobre o próprio eixo pra quebrar o vácuo, porque todo mundo sabe que peido segue a gente, né?
Quase uma década após este diálogo, comprovei de maneira prática – em outro contexto, é verdade – que o silêncio peidorífico tem, no mínimo, a vantagem de disseminar a dúvida e por isso garantir o anonimato.
Era uma tarde modorrenta, assistia na sala de estar um programa de TV qualquer enquanto Kika, minha irmã, arrumava pela enésima vez seu quarto e Jane, nossa secretária do lar (salve, salve patrulha politicamente correta), estava ocupada na cozinha. Por estar sozinho, aproveitei e dei vazão sem pudor algum ao clamor anal que me atormentava.
Putquepariu, mermão! O que saiu de mim foi um feixe de gás quente, ardido, que se tivesse cor seria verde e fazendo aquele ffffffffffffffff, somente audível pelo próprio autor do crime. Em poucos segundos, um fedor tomou conta do ambiente e por ali se instalou, denso, pesado, in-su-por-tá-vel. “Ainda bem que estou só”, pensei, “já pensou se fosse numa festa dançando música lenta?”.
Foi quando Kika passou pela sala em direção à cozinha, deu uma paradinha, arrebitou o nariz como um cão farejador, inalou brevemente um pouco daquele ar úmido, viscoso e nauseabundo, fez uma careta de nojo e berrou para Jane: – Jaaaaaane! Você tá mexendo no ralo? Cheiro de rato morto! – Eu não. E eu? Quieto, rindo por dentro...
Tínhamos recém mudado. Seria a primeira noite no nosso apartamento, um quarto e sala muito charmoso no Itaigara, após termos morado por quase sete meses na casa da minha sogra. Saí do trabalho, peguei Lua, então minha esposa, na casa da mãe, e fomos para o que seria chamado, durante os 13 meses seguintes, de lar.
Já tinha tomado uma surra nos três primeiros rounds contra a fechadura quando a porta bem ao lado se abriu. Mesmo concentrado na árdua tarefa de destrancar o ferrolho, de relance vi sair um cara igual a Felipe, amigo de Mafalda, personagem de Quino, do apartamento ao lado:
– Lua?! – Edinho?! – Não acredito! Tá perdida? – Estou me mudando pra cá hoje.
Eles tinham sido amigos na adolescência e, desde aquela época remota, nunca mais tinham se visto. Naquele dia, nos tornamos vizinhos e com a convivência, amigos.
Não demorou muito para conhecer sua esposa, Mima, e a filha deles, Julia, que estava sendo alfabetizada. Nossas portas viviam abertas, transformando os apartamentos 047 e 048, no final do corredor do primeiro andar, em um amplo 2/4.
Almoçávamos juntos, ouvíamos música, brincávamos com Julia, compartilhávamos sonhos, dividíamos problemas e, mais importante, celebrávamos o ócio juntos! Eram dois apartamentos, mas somente um lar. Até D. Maria, secretária, como gostam os politicamente corretos, do 047 foi contratada como nossa faxineira, dando uma geral no apê uma vez por semana.
Com a contratação de D. Maria, demos uma relaxada na limpeza cotidiana, pois havia a garantia de uma faxina impecável a cada sete dias. Com a falta de varredura diária, o piso ficava atrolhado com meus pelos corpóreos. Na realidade, havia poeira também, mas os meus singelos pelinhos ganhavam um grande destaque nas lajotas brancas.
Coincidiu, certa feita, que eu estava em casa no evento da faxina. D. Maria, varrendo a sala, parou abruptamente e disse:
– Seu Lubisco! – Diga, D. Maria... – Com todo o respeito, o senhor parece um macaco. – Como assim, D. Maria?! – Ó pai, ó! Se juntar esses pelo tudo, dá pra fazer um tapete!
Além do convívio com esta figuraça, ter conhecido Edinho me proporcionou ampliar meus horizontes musicais e fazer novos amigos. João Donato, Toninho Horta, Marc Ribot & Los Cubanos Postizos, Mulheres Que Dizem Sim e Ronei Jorge e Os Ladrões De Bicicleta – banda de que faz parte – têm cadeira cativa na lista de execução do meu iPod. Conheci, também, entre tantos, Ronei, Serginho e Pedrão, parceiros musicais mas, acima de tudo, amigos.
Além do talento peculiar, o que mais me chamou atenção quando os conheci foi a inteligência de todos eles. Os caras são inteligentes em demasia, chega irrita! Mas não são inteligentes chatos, sabe? Conseguem, muito naturalmente, equilibrar a sensibilidade acima da média e a capacidade cognitiva incomensurável com momentos de descontração absoluto. Se há uma coisa que odeio é esse povo que não relaxa. Aquela trupe cool, sempre com comentários pertinentes a respeito de qualquer assunto, com piadas sagazes, tiradas brilhantes e, no geral, incompreendidos pelo resto do mundo. Em um passeio casual no Rio Vermelho, bairro boêmio de Salvador, pode-se encher, em segundos, uma daquelas Scanias com motor de 400cv tracionando uma carreta de três eixos capaz de suportar 27 toneladas de carga, com a patrulha da inteligência. Não tenho saco.
O meu primeiro contato com uma pessoa tão acima da média foi na UFBA, no Curso de Letras, no final da década de 90. Marina Martinelli me fazia ter cãibras cerebrais ao tentar acompanhar o raciocínio dela. Ela é genial e divertidíssima, daquelas pessoas capazes de fazer troça de si mesmo. Se autodenominava: Mulher Química.
– Oxe, Martinelli, como assim? – Baixa combustão. – Ãhn? Como é? – Baixa com bustão! – fazendo referência à pouca estatura e aos fartos seios. Ai, ai, como assim, Marina?! Como assim?!
Logo após a conclusão do curso de Letras, em 2003, resolveu emendar o mestrado... na Noruega! E em norueguês. PUTAQUEPARIU, assim é humilhação conosco, reles mortais. Afortunadamente, as distâncias têm sido vencidas por softwares de mensagens instantâneas, tipo ICQ, MSN Messenger ou Skype, e tenho lançado mão destas ferramentas internéticas para manter contato com os amigos que moram longe daqui.
Em um destes encontros virtuais, Marina e eu conversamos um pouco sobre as sutis diferenças entre a vida acadêmica em Oslo e em Salvador. São quase imperceptíveis.
Lubisco diz: Fala Marina! Marina diz: Oi Lubis!!! Há quanto tempo. Como vai? Lubisco diz: Tudo na paz. E vc? Marina diz: Aqui, nesta vida. Como tá o povo? E a UFBA? Lubisco diz: Todo mundo bem. A UFBA, melhor que nunca! Mais uma greve! Sem aulas, sem perspectiva de terminar o semestre, sem condições. Aquela coisa linda de se ver. E aí, como tá a vida de Mestranda? Marina diz: Nem te conto que coisa terrível. Um horror! Lubisco diz: Mesmo? Marina diz: A biblioteca geral daqui é uma indecência! Central. Tipo Shopping Barra, só que com sete andares. Lubisco diz: que péssimo! Marina diz: incluindo dois só de revistas e periódicos, uma seção de Literatura Tibetana, que foi doada pelo próprio Dalai Lama. E tudo automático – empréstimo e devolução. Nada de fila. Lubisco diz: Deprimente! Vc não tem saudade da nossa Central? Marina diz: Morro! Especialmente das pinturas horrendas, do cheiro... essa biblioteca daqui, toda em madeira de cerejeira, me dá nojo. E as mesas com conexão pra “lapitopes”? Lubisco diz: Lamentável Marina diz: Horrível Lubisco diz: Imagino, amiga.,. como vc faz para estudar em tais condições? Marina diz: é difícil! E a renovação de empréstimos via Internet? Tão fria e impessoal... Lubisco diz: quanta solidão! Marina diz: pior ainda é sobreviver nos dois subsolos só com clássicos e primeiras edições. Lubisco diz: primeiras edições são completamente ultrapassadas! Por isso temos as novas! E os clássicos, como sabemos, só servem para dificultar a ascensão de novos valores. Representam a ala mais retrógrada da intelectualidade mundial! Absurdo! Marina diz: um nojo Lubisco diz: amiga... sinto muito por essa situação! As portas estão abertas, caso queira voltar para cá! Marina diz: Obrigado, Lubis. Ah! E o banco de dados que localiza todos os livros disponíveis em bibliotecas públicas em todo país? E entregam o livro na sua casa pelo correio, tudo de graça! Lubisco diz: chato! Lamentável isso existir! Marina diz: tira o sal, a emoção. Lubisco diz: principalmente o sal do suor, nas filas! Marina diz: eles tb mandam já as cópias das páginas do livro que vc precisa pra sua casa. Realmente me dói tanto perder as filas da xerox... Lubisco diz: aquela experiência socioantropológica que tanto necessitamos para conviver melhor com as diferenças: as filas de xerox! Como acabar com isso?! Ultrajante! Marina diz: tb acho. Lubisco diz: volte, volte logo, amiga. Não se submeta! Marina diz: ao invés das filas, tenho que ficar sentada em um dos laboratórios de informática (onde todos os computadores funcionam) ou passeando por um dos três museus do campus. A vida é dura por aqui. Lubisco diz: Todos os computadores funcionando? Só falta vc me dizer que Papai Noel e Saci Pererê existem. Marina diz: e o transtorno do cinema de graça nas quintas-feiras? Lubisco diz: isso é falta de respeito! Marina diz: e não tenho nem desculpa pra vagabundear, porque além de 12 bibliotecas, ainda tem 3 livrarias. Como filar aula se a presença não é obrigatória? Nem isso posso fazer! Lubisco diz: Um crime contra o nosso aguçado senso de responsabilidade! Marina diz: ultrajante Lubisco diz: perdemos o instinto subversivo assim... Marina diz: pois é...
Quem nunca investiu alguma irrisória quantia na bolsa de apostas ilegal em animais, inventada em 1892, pelo fundador e proprietário do Jardim Zoológico do Rio de Janeiro, barão João Batista Viana Drummond? Eu.
D. Andrelina, uma senhora que trabalhou por anos na casa de minha família, interpretava meus sonhos e saía correndo para a banca de Jogo de Bicho a uns 15 minutos de caminhada rápida só para apostar. Incontáveis vezes, ganhava uma graninha, mas nunca, segundo ela, em função dos meus sonhos. Acho que não era muito boa de interpretação, mas, por outro lado, tinha uma sorte...
Acredita-se ser por causa do Jogo do Bicho que o número 24 é associado à homossexualidade masculina. Como assim? Bem, adivinhe à que animal este algarismo de dois dígitos pares, divisível por 1, 2, 3, 4, 6, 8, 12 e 24, é relacionado? Já a relação entre ser gay e o veado, não tenho a mínima idéia. Talvez por causa de Bambi, que andava, apesar de órfão, alegre e saltitante pela floresta? Se foi pela singeleza, deveriam ter escolhido um canário, afinal de contas, o Piu-Piu, objeto de desejo do gato Frajola, era canário. Para quem achava que aquele doce e sádico passarinho era fêmea, peço perdão por desconstruir o mito.
A verdade é que Tweety, como é chamado originalmente, tem tudo para ser veado. Afinal, o que pode ser mais veado do que aquela vozinha em falsete dizendo: “Eu acho que vi um gatinho. Eu vi, eu vi um gatinho!”?
É imprescindível, porém, fazer uma distinção antes que a patrulha do politicamente correto me processe por homofobia. Coisa de veado não tem uma relação direta com a orientação sexual do cabra. Lembra de Gabriel, O Pensador? Ele dizia:
“E não se esqueça que o problema não está no cabelo, está na cabeça Nem todas são sócias da farmáciaTem muita loira burra de cabelo preto e castanho por aí E loira burra morena, ruiva, preta, loira burra careca”
Pois bem, é a mesmíssima situação. “Coisa de veado” independe do gênero que o cara escolha para compartilhar as lascívias da alcova.
Tirar a cutícula, colecionar perfumes, depilar, dar um corte no cabelo mensalmente... coisas de veado; fazer a sobrancelha, usar calça jeans coladinha, tênis branco-pérola... coisas de veado; ouvir ABBA, Gloria Gaynor, George Michael, ser fã de Madonna... coisas de veado; estudar Letras, ensinar inglês, fazer aula de dança... coisas de veado.
Foi justamente sobre a expressão chula referente ao ato sexual entre dois homens, veados ou não, e, na verdade, sobre diversas outras ofensas de baixo calão, que, certa vez na sala do Diretório Acadêmico do Instituto de Letras da UFBA, alguns alunos filosofaram a respeito.
Estávamos relaxando entre uma aula e outra, naquele estilo bem baiano que todos falam ou mesmo tempo, aos berros, sabe? Até que se ouviu um: “Porra nenhuma! Vá tomar no cu!”
Marina, uma daquelas pessoas que são excessivamente inteligentes mas não por isso chatas, aproveitando o gancho – ela que adorava trocar idéias só pela discussão em si – fez o seguinte questionamento: “Vocês já repararam que nossos xingamentos estão quase sempre ligados às genitálias ou ao ato sexual?”
A discussão seguiu por esta tortuosa vereda. Pica, caralho, buceta, porra, vá se fudê. Mesmo o bom e velho feladaputa, como se diz por aqui, foi analisado. Só assim percebemos o quanto é ofensivo ser gerado, parido e criado por uma progenitora emancipada e profissional do sexo.
A conversa seguia ora suave, ora mais acirrada. Foi quando alguém lembrou que toda aquela balburdia tinha começado por causa de um singelo “vá tomar no cu”. Foi logo retrucado por um colega:
– Mas aí, também, é foda. Tomar no cu ninguém gosta, né? – Huuum... frase polêmica esta, hein? Principalmente aqui em Letras, onde há uma grande probabilidade de esta prática ser apreciada por ambos os sexos.
Depois de alguma ponderação entre os mais engajados e os mais escrachados, fez-se silêncio – coisa raríssima naquele local e entre aquelas pessoas. Estávamos refletindo verdadeiramente até que, vindo do sofá, ouviu-se a voz de trovão de Rômulo, aquele cara vindo de um interior brabo qualquer, provavelmente Aratuípe, terra de cabra-macho, para estudar, com bom coração, mas tosco e rude que metade bastava. Andava se modernizando após a chegada à capital, mas a falta de parâmetro o levava a usar, por exemplo, uma bandana vermelha no cabelo no estilo Axl Rose, então band leader do Guns and Roses. Ampliou seu repertório, já que tocava violão razoavelmente bem, com a adição de canções do Aerosmith, Poison, Europe, além de Whitesnake e Bon Jovi. Puta que pariu! Como assim, mermão?! Com a quantidade de batom usado por essas bandas em um show, dava pra maquiar todas as manequins do São Paulo Fashion Week durante todos os dias do evento.
Pois bem, ele disse: – Se tu acha que pode ser bom, então vá tomar no cu com brita!
Oitenta decibéis é o limite de intensidade sonora que o ouvido humano é capaz de suportar sem risco de lesão do aparelho auditivo. A partir daí, os danos variam desde um ligeiro desconforto até perda da audição.
Já faz um tempo que ando com um protetor auricular a tiracolo. Cansei de voltar de shows e festas com o ouvido apitando. Mesmo chegando em casa exausto, aquele zunido agudo e intermitente me impedia de dormir.
E, na verdade, o que me levou mesmo a tomar esta atitude profilática não foram os enxames de abelhas dentro da minha cabeça enquanto eu rolava na cama, mas uma aluna que tive. Como parte do processo avaliativo do curso de inglês, onde ela fora minha pupila, os alunos, no final do semestre, preparavam uma apresentação oral sobre um tema de sua preferência. Ela, fonoaudióloga e dona de uma loja especializada em aparelhos auditivos, discorreu sobre os riscos da exposição prolongada a altos volumes e possíveis medidas preventivas.
No final da apresentação que lhe rendeu a nota máxima, mencionei o zumbido pós-show que me acometia todos os sábados e domingos. Após algumas perguntas mais específicas, Julia disse que eu deveria ser submetido a um teste audiométrico a fim de diagnosticar algum sinistro no meu equipamento receptor de impulsos sonoros.
No dia seguinte, fiz a avaliação e, para a minha tranquilidade, nenhuma perda foi detectada. Entretanto, fui alertado que deveria tomar cuidados especiais, pois com a alta frequência em shows de rock, os próximos resultados poderiam ser bem diferentes. Como forma de me estimular a adquirir um novo hábito, ganhei gratuitamente um protetor auricular sob medida.
Hoje em dia, fico impressionado com o volume que algumas pessoas escutam som no carro. Parecem trios elétricos. É surreal! Na segunda-feira de carnaval, parei na loja de conveniências de um posto de gasolina para comprar sorvete de chocolate e Coca Zero, pois tinha alugado quatro filmes e estava decidido a assisti-los até a hora de ir buscar Paula, minha namorada, que estava trabalhando na festa momesca. Estacionado bem na frente da entrada principal da lojinha, um automóvel com o porta-malas aberto. Dentro deste compartimento traseiro projetado para carregar volumes, havia caixas de som que ocupavam todo o espaço. Era ensurdecedor.
Esses tipos se proliferam como erva daninha. São, em sua larga maioria, homens que supervalorizam seus carros, vivem frequentando as delicatessens de postos de gasolina expondo seus bíceps musculosos, exibindo pesadas correntes no estilo gangster rapper no pescoço, dançando pagode, arrocha e forró, enquanto empunham uma latinha de cerveja, falando alto, ignorando o aviso que proíbe o som naquele estabelecimento e, pior de tudo, impondo o seu gosto musical aos transeuntes.
Acredito que há uma relação inversamente proporcional entre a potência do som e a potência dos seus donos. Mas é só uma teoria... Essa questão, porém, só diz respeito a estes ditadores musicais e suas parceiras, ou parceiros. O mais irritante de tudo é a incapacidade de compreender a importância de não invadir os espaços alheios quando se vive em comunidade. Por mim, eles podem acabar completamente surdos, desde que as sessões de audição ocorram no meio do deserto.
Confesso beirar a paranoia no quesito “não quero invadir o seu espaço”. Ainda assim, cometo deslizes. Certa feita, comprei dois brinquedos que imitam osso para Sofia e Helga. Tinha sido aconselhado por uma veterinária. Aparentemente, ao tentar roer aqueles pesados pedaços de osso processado, elas estariam prevenindo o acúmulo de placa bacteriana nos dentes. Adoraram!
No final do dia, ao chegar em casa, havia um recado me pedindo para entrar em contato a vizinha do apartamento logo abaixo do meu, D. Maria Joana (nome fictício). Nem troquei de roupa e fui lá pessoalmente. A referida senhora, não muito cordialmente, preciso ressaltar, reclamou do barulho oriundo do impacto dos novos brinquedos e o piso de lajotas do meu lar. Antes que eu pudesse tentar argumentar, um trovão ecoou na sala de jantar dela... e vinha lá de cima, da minha casa. Pedi desculpas e garanti que não aconteceria mais. Subi correndo e confisquei a nova diversão das cãs.
Nos meses subsequentes, pelos menos três vezes por semana, ao retornar do trabalho à noite, encontrava o meu quarto completamente incensado com o característico aroma da erva maldita. E, cá entre nós, não gosto do cheiro. Chegar em casa e sentir o barrunfo impregnado no lençol, no cobertor e na fronha era foda! Irritante demais. Tudo indicava ser proveniente da janela do terceiro andar, um a menos que o meu. Entretanto, não tinha como provar. Nada contra a tia queimar unzinho. Muito pelo contrário. Mas eu odeio o cheiro.
Só tive certeza quando, numa madrugada, acometido pela minha inseparável insônia, resolvi sentar ao lado da janela enquanto tocava violão e fumava um cigarro. Depois do segundo acorde, eis que sobe a fumacinha característica e impregna minhas narinas. Debrucei-me no parapeito, olhei para baixo e me deparei com uma mão feminina, apoiada na janela de baixo, segurando um baseado. A coroa do terceiro andar era maconheira. Ela que sempre entrava sisuda no elevador e mal cumprimentava as pessoas era uma chincheira profissional. Mas por que somente agora, após quase 10 anos de vizinhança, a fumaça começou a invadir meu quarto? A princípio cheguei a cogitar que ela adquirira o hábito tardiamente. Acabei descobrindo por vias transversas, contudo, que a mãe de D. Maria Joana se mudara e havia deixado o apartamento para a filha. Quando os gatos saem, os ratos fazem a festa.
Meu primeiro instinto foi o de reclamar. Fazer exatamente como ela fizera. Resolvi, entretanto, depois de refletir um pouquinho, que eu, dentro dos meus princípios de bom convívio social, poderia ser mais tolerante e flexibilizar um pouco. Afinal, fumar maconha ainda é estigmatizante nesse país e ela, uma respeitável cinquentona, estava tendo a rara oportunidade de fazer isso no conforto e segurança do próprio lar. Daquela noite em diante, então, toda vez que saía de casa, eu fechava a janela.
Tudo seguia normalmente até eu comprar duas almofadonas para Sofia e Helga. Com esta aquisição, resolvi ensiná-las a somente roer os brinquedinhos confiscados quando estivessem em cima das almofadas. Elas adoravam passar horas afiando as presas e combatendo as placas. Tive o cuidado de adestrá-las no horário do almoço, pois sabia que a senhora do andar de baixo não retornava antes das 18 horas. Não foi necessário muito tempo. Fiquei surpreendido com a velocidade em que se habituaram ao novo comando. Em três dias, estavam educadas. Ainda assim, tinha o cuidado de deixá-las brincar somente sob minha observação.
Num fim de semana qualquer, enquanto eu assistia a alguma besteira televisiva, Sofia deixou o osso escapulir da boca. Este escorregou pela beirada da almofadona e tocou a lajota. Em menos de dez segundos, o interfone tocou. D. Maria Joana estava irritadíssima com a barulheira interminável que minhas cachorras faziam, segundo a própria, arrastando um maldito osso por toda a casa. Aí pirei o cabeção! Putaquepariu! A porra do osso resvalou na lajota e a coroa aloprou! Como assim, D. Cinquentona Maconheira Descarada?! Como assim?
Respirei fundo, contei até cinco mil, mantive a calma e tentei ponderar, assumindo a responsabilidade do primeiro ocorrido, mas ressaltando que desde aquela época nada mais tinha acontecido, dos cuidados tomados, inclusive do adestramento nos horários em que ela não estava. Ainda desproporcionalmente nervosa, quiçá pela ausência de THC na corrente sanguínea, disse que eu deveria aprender a ser menos egoísta e um pouco como viver em comunidade, respeitando o espaço alheio. Foi a deixa que eu precisava:
– Justamente, D. Maria Joana. Também acho de suma importância as pessoas aprenderem a viver coletivamente, serem mais flexíveis e tolerantes para que se conviva mais facilmente com as diferenças. – Então! – Então, não é? Há alguns meses, o meu quarto tem sido impregnado por uma fumaça vinda do seu apartamento, pelo menos três vezes na semana. E a senhora recebeu alguma reclamação? Ao invés de reclamar, fechei a minha janela. – Erm... Veja bem... É que eu gosto de incenso. – Incenso? – É... é incenso. – Sei, sei... pois quando eu era mais jovem também fumei muito desse incenso. – ...
Há um conceito equivocado, muito comum entre leigos e alguns linguistas incompententes, de que não se aprende uma língua depois de adulto. Bobagem! Além de diversos estudos sérios atestando o contrário, eu sou a prova viva que refuta esta asneira. Comecei a estudar inglês aos 21 anos e aos 25 já ensinava. Não por ser um gênio, mas por me dedicar com afinco.
Estudei na Cultura Inglesa e tornei-me professor de lá em 1999, após ter feito o TTC (Teachers Training Course) com Jackie Sabback que, além de ter sido a minha primeira mestra, foi quem acreditou no meu potencial. Jamais esquecerei as palavras dela ao me comunicar que a escola tinha interesse de que eu fizesse parte do corpo docente. Disse: “Lubis, alguns se esforçam para dar aula. Você já nasceu professor. Isso é uma grande responsabilidade. Abrace essa carreira e aproveite!”
Neste 10 anos de casa, muitos professores chegaram, tantos outros foram e, no geral, conseguimos manter um bom clima de trabalho. Obviamente, há os atritos típicos de um ambiente em que 90% dos indivíduos ciclam e sofrem de TPM. Mas nada que distoe do normal.
Vez ou outra, surgia um professor chato de galocha, mas que, para a nossa sorte, não durava muito. Lembro de um idiota antitabagista de carteirinha. Odeio esta patrulha panfletária! Se tem uma coisa que me tira do sério (e há incontáveis) é gente que vive importunando a paz dos outros com sua idéias copiadas de livros de autoajuda.
Sempre fui um fumante relativamente educado, se é que isso existe. Segurava o cigarro com a mão esquerda, pois uso a direita pra cumprimentar; se fumava antes da aula, lavava bem o rosto, as mãos e ainda mascava chiclete em respeito aos alunos; jamais fumava em frente a crianças e, no trabalho, ia até o jardim para não importunar ninguém.
Um dia, ao chegar na sala dos professores, percebi que havia um recado escrito em letras garrafais numa folha A4, pendurado na porta no meu armário, dizendo: “NÃO FUME, ESTOU RESPIRANDO!” Arte de quem?
Quase enlouqueci de raiva. Como assim?! Aquele merdinha que só vestia camisa pólo por dentro da calça e não devia comer ninguém querendo me dar lição de moral. Vê se tem cabimento! Não contei dois, peguei uma folha A3 no almoxarifado, escrevi com piloto vermelho “NÃO RESPIRE, ESTOU FUMANDO!” e, com cola cascolar – aquela bem gosmenta que dá um trabalho retado para ser removida – afixei meu singelo cartaz na “mochila fashion que acabei de comprar em SP” do fedelho.
PUTAQUEPARIU, mermão! Se não quer fumar, ótimo. Mas, por favor, deixe eu me matar à vontade! Que fumar é nocivo à saúde, todo fumante está careca de saber. Os não-fumantes é que não entendem o quanto fumar é gostoso.
“Come to where the flavor is. Come to Marlboro country” é o lema do cigarro mais famoso produzido pela antiga Phillip Morris, fabricante londrina que criou, em 1902, sua primeira subsidiária em Nova Iorque para vender suas marcas, entre elas, Marlboro.
Nunca fumei compulsivamente mas fui fiel a este cigarro forte e encorpado de filtro amarelo por 16 anos. Era daqueles que fumam aproveitando o instante, quase como um ritual. Só quem fuma assim consegue dimensionar o que representa um trago no meio da noite quando a solidão bate à porta. Um cigarro bem fumado pode ser uma excelente companhia.
Mesmo mantendo uma média de quatro a cinco cigarros por dia, largar o vício foi uma tarefa árdua. Se por um lado tenho um paladar mais apurado agora, por outro, ganhei 15 quilos! Tenho ganas de voltar. Repito, diariamente, que não sou ex-fumante, mas sim um fumante que não fuma. É somente uma estratégia para evitar deslizes. Por experiência própria, sei que um tragozinho de nada é o suficiente para jogar todo meu esforço no lixo.
O fato é: fumar é bom pra caralho. Por isso, sucumbir à tentação da nicotina também não é o fim do mundo. Afinal, parar de fumar é fácil, basta apagar o cigarro. Foda mesmo é não voltar! Conheço, a propósito, várias pessoas que voltam para o tabaco depois de já, aparentemente, estarem lidando bem com a maldita abstinência.
Com uma querida amiga míope foi assim. Abandonamos o cigarro, coincidentemente, na mesma época. Poucos meses depois, entretanto, me surpreendi ao vê-la acendendo um mata-cachorro qualquer! Senti-me traído!
Há de se fazer justiça, porém. O motivo da recaída foi, indubitavelmente, o mais legítimo de todos no mundo mundial! Veja se você não concorda comigo.
– Porra, babes, não acredito! Achei que estivéssemos no mesmo barco! Puta que pariu! Como assim, você voltou a fumar? Como assim?! (Na moral, ex-fumante só perde em chatice para ex-mulher!) – Foi mais forte que eu e... – Não me venha com desculpa esfarrapada do tipo “ai, mainha, meu pé ta doendo, meu pé ta doendo!” – Queria ver se você estivesse no meu lugar, se não voltava a fumar também. – Nêga, só queria te lembrar que minha namorada fuma. Eu passo por provações todo santo dia! Nada pode ser pior que isso! – É mesmo? Então se ligue: eu tava trabalhando como produtora de um filme. Meu chefe andava a mil por hora à base de café e cigarro. E eu, na minha, segurando a onda. Não houve um dia sequer que tenha trabalhado por menos de 10 horas. Já tava um caco... nas últimas mesmo. Foi quando num domingo de manhã cedo, tipo umas 7 horas, após ter ido dormir às quatro da matina, meu celular tocou e adivinhe quem era? Meu amado chefinho. Ninguém merece o chefe ligando no único dia de folga! Ainda sonolenta, coloquei os óculos para escutar melhor e tive que ouvir o seguinte: “desculpe, querida, talvez seja um pouco cedo, mas mudei alguns planos da filmagem e preciso que você me consiga, para hoje antes do meio dia, um anão”. – Como assim, um anão, amiga?! Como assim?! – Pois é. Daí acendi um cigarro!
Morar na Alemanha é coisa para profissional. Amador não entra. Minha amiga Cris, já muito bem adaptada, tanto à língua quanto ao modus vivendi, que o diga. Suou a camisa até conseguir o equilíbrio entre a baianidade nagô e a germanice de Bremen. Houve um elemento fundamental para o encaixe de duas culturas tão distintas, entretanto: Das Bier!
Tive menos sorte, não bebo. Hoje me arrependo profundamente de ter me privado de aprender alemão. Foi a minha maneira de resistir a uma suposta imposição cultural etnocêntrica. Mesmo tendo vivido por quase um ano e meio naquele iceberg germânico, compreendo quase nada e consigo apenas construir frases muito rupestres. Uma pena, uma pena.
Meu primeiro professor foi Michal (pronucia-se mirrau), amigo polaco, criado primeiramente em Berlim assim que chegou da terra natal como imigrante e, então, mudou-se para Bremen, onde ainda reside e é casado com Cris. Para falar a verdade, eu os apresentei em meados de 1999, aqui em Salvador. Em função dos imponderáveis rumos que a vida toma, assim que cheguei à cidade dos Saltimbancos (Die Bremer Stadtmusikanten), Michal foi o primeiro a me dar guarida. Jamais esquecerei a minha chegada, naquela noite, à Hauptbahnof, estação central de trem. Estava emocionalmente estraçalhado, com saudade de casa e ainda era inverno. Só quem já vivenciou um inverno de verdade sabe como esse senhor gélido influencia o nosso estado de espírito.
Por ter pouquíssimos euros, peguei o trem lento, por isso mais barato... ou seria o mais barato, por isso mais lento? Após quase sete horas de viagem, ao saltar na plataforma, com a mochila pesada nas costas, logo avistei Renezão, amigo de tantas batalhas que também, por outros motivos, andava perdido nazoropa. Logo em seguida, Michal apareceu e os dois me abraçaram forte. Enquanto eu chorava convulsivamente, o futuro marido de Cris disse: “meu irmão, você acabou de chegar em casa”. Ainda me emociono com essa imagem.
Lamento tanto tê-lo decepcionado como aluno. Mesmo tendo uma excelente gramática presenteada por meu engajado professor, o aprendiz era relapso. Ele acabou, por seus justos motivos, desistindo de mim. Prematuramente talvez, mas compreendo o quanto é chato acumular as funções de mestre e babá. Acho que jamais o agradeci por ter me ensinado as três coisas mais importantes durante a minha estada por aquelas bandas:
1. Torcer pelo Werder Bremen; 2. Dizer o meu endereço (Neustadtcontrescarpe neunundzwantig); 3. A frase Bombril: Ich bin total bekift, que significa: eu tô chapadão.
Caso viaje para algum país falante de alemão, esta frase, exceto quando abordado/a por policiais, pode te livrar de muitas situações. Se te perguntam as horas, reponda Ich bin total bekift, que com certeza a pessoa procurará outrem com um relógio no pulso. Se te pedem informação a respeito de onde fica a Mc Donald’s, olhe ao redor para ver se há o tradicional M por perto. Caso esteja à vista, aponte. Se não, Ich bin total bekift nele! Questionam o seu nome, Ich bin total bekift. De onde você é? Ich bin total bekift, mais uma vez. Se bem que, nesse caso, pode-se inferir equivocadamente que você é oriundo da Jamaica ou Holanda.
Depois de quase dois meses abusando da boa vontade de Michal, meu anfitrião, a hora de buscar um lugar para mim já tinha chegado há décadas. Meu desconfiômetro já tinha ultrapassado o limite, apesar de me sentir muito à vontade no cubículo que chamávamos de lar. Comecei, então, a procura por moradia.
A primeira que visitei era uma casa de dois andares a duas estações de onde morávamos. Tive a sorte de o proprietário ser um jovem estudante, fluente em inglês, que iria passar uma longa temporada na Argentina estudando tango. Como assim, meu nêgo?! Perdeu o quê na Argentina? Como assim, Argentina?!Enlouqueceu? Lá tá entupido de argentinos...
A casa era bem no meio de uma estreita ruela transversal à avenida principal, onde de um lado havia essa série de 18 casas conjugadas e do outro, um muro de aproximadamente três metros de altura, que se estendia por todo o quarteirão. A calçada entre a porta da entrada das casas e a muralha tinha, com certeza, menos de três metros de largura. Meio claustrofóbico. Imaginei que deveria ser macabro durante a noite, pois consegui ver, após um breve rastreamento, somente um poste de iluminação pública no finalzinho da rua, lá na casa da porra.
Matze me mostrou a sala de estar, a cozinha e um micro jardim-de-inverno no térreo. No andar de cima, havia um gabinete pequeno, mas confortável, e a suíte com uma varanda surpreendentemente ampla. Foi da varanda que avistei o que estava por trás do muro. O proprietário não parava de explicar alguma coisa que eu já não escutava mais, pois estava vidrado naquilo entre o horizonte e as portas de vidro da varanda. Quando dei por mim, Matze já me pegava pelo braço como se quisesse me tirar de um transe.
(ativar tecla SAP)
- Sr. Lubisco, está tudo bem? - Hã? Sim, sim, está. Desculpe, estava absorto. - Aconteceu algo, posso ajudá-lo? - Não, não. Tá tudo ótimo. Erm... me responda uma coisa. O que é isso aí na frente? - Um muro. - Eu quis dizer, atrás do muro. - Ah! Acho que me esqueci de mencionar, né? É um cemitério. Algum problema com isso? - Não exatamente... - Ótimo. Como ia dizendo, tenho certeza que o senhor vai adorar. A vizinhança é ótima. São super silenciosos e nunca reclamam do barulho.
Escrever é anti-natural para mim. É um exercício de pesquisa e lapidação que descobri ser capaz de executar. Não se engane ao ler, pois tudo aqui é ficção...mas também é realidade.